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18/07/10

M (1931)


M é o primeiro filme sonoro de Fritz Lang e, na época, o som era uma criança de três anos. Os primeiros haviam-no explorado como novidade técnica para bater concorrentes poderosos. Muito poucos foram os que, nesses primeiros tempos, viram o mais que adiante se veria, ou seja que o cinema iria ser cada vez menos coisa só de ver, coisa só de imagens. Entre esses muito poucos, lugar de grande relevo assume esta obra de Rouben Mamoulian. Mas este filme de Fritz Lang dá por essas bandas sonoras um salto em frente de todo o tamanho. Ainda se está no genérico (com desenhos de sabor expressionista), quando se começa a ouvir o assobio, com o tema do Peer Gynt de Grieg. A música é relativamente familiar e só mais tarde se saberá o que ela significa para o protagonista, para as suas vítimas e para o desenrolar da própria acção.
Quando o assobio cessa, vemos em plongé a roda das crianças, cantando uma lenga-lenga infantil, cuja letra alude ao homem preto que vem aí para te fazer em picadinho. Há um longo movimento ascensional da câmara, que vai ter a uma mulher que manda acabar com aquela “maldita cantilena”. Mas a cantilena não acaba e ouvimo-la ainda na imagem seguinte, sobre o famoso plano em que a sombra de Peter Lorre se projecta no cartaz que pede a captura do assassino. Quando, mais tarde, se volta a ouvir, em in e já não em off, o famoso assobio, percebe-se que a “maldita cantilena” talvez fosse menos a das crianças, e mais a que, antes do genérico, tínhamos escutado. A lenga-lenga dos miúdos indicara uma cor e uma sombra; o tema de Grieg era o leitmotiv da morte e do impulso para ela. Assim, o elemento inquietante não vinha do tema musical que aparentemente o era (pela sinistra letra e pelo sinistro ritmo) mas da folclórica dança nórdica do pacífico e sentimental compositor norueguês que se chamou Edvard Grieg. As aparências enganam.
Assobia na noite quem tem medo e está só. Assobia quem sente necessidade de acompanhamentos (companhias) para estremeções que não controla e que o fazem rodopiar. Para danças obscuras, sem mãos dadas, como as rodas das crianças. (...)
E assim chegamos ao outro pólo da obra: o medo. Medo de Beckert de si mesmo e dos outros; medo do olhar sem dono que comanda a sistemática visão em plongé; medo dos polícias e medo dos ladrões, recíproco e comum; medo dos olhares fixos que não sabem ouvir (o espantoso contracampo que descobre a Lorre a multidão dos seus julgadores, fixos no silêncio e na impossibilidade de escutar); medo do que os olhares lhe devolvem das suas próprias palavras e das palavras dos seus defensores e acusadores (o prodigioso vaivém da câmara na sequência do julgamento); medo do que só é visto por emanação; as sombras, os frutos, as luvas, os bibelots, tudo o que dá sinal de uma presença, ocultando essa mesma presença.
Porque neste filme (donde o sistemático recurso à montagem paralela) tudo se intercomunica: os gestos dos ladrões repetem os dos polícias ou vice-versa, como se repetem os discursos uns dos outros; a condenação vem tanto da lei como da ausência dela.
Porque neste filme não é nas prisões nem no mundo do crime que há que procurar Beckert, mas nos asilos e nos manicómios, Beckert não é encontrado por ter cadastro, mas por ter estado internado num hospício de loucos.
Meditação sobre a inanidade da culpa e o absurdo da justiça - temática cara de Lang e que a sua obra futura desenvolveria “para além de razoáveis dúvidas” - M é sobretudo a descida à última razão de ser do que separa os actos dos motivos deles, o visível do invisível, o que cabe em palavras e o que elas jamais podem dizer, o audível do inaudível. Entre a sua imagem e o seu “sopro”, Beckert não encontrou o meio termo “em que talvez tivesse podido substituir”. Com M, o som, misturando-se com a imagem, recuperou o mundo das paixões para o espaço privilegiado delas que é a mudez. O primeiro grande filme sonoro é o primeiro filme do total silêncio.
Tudo reside num assobio e numa dança. Ou seja, no cinema.

João Bénard da Costa
(texto adaptado)

10/05/10

Modern Times (1936)


Em Tempos Modernos, Chaplin dá vida, ao Vagabundo que lhe tinha trazido fama e simpatias em todo o mundo. Os problemas do desemprego, pobreza, desigualdades económicas e a tirania da máquina começaram a absorver a atenção de Chaplin. O filme transforma o Vagabundo num de entre os milhões de trabalhadores fabris que povoam o globo. Visto pela primeira vez numa linha de montagem, cujo trabalho desumano e monótono o enlouquece, o Vagabundo não tarda a ser usado como cobaia para testar uma máquina que alimenta os operários, enquanto estes realizam as suas tarefas. Entretanto conhece uma aliada para a batalha contra este mundo. O Vagabundo e a sua companheira são, de acordo com Chaplin, "Os dois únicos seres vivos num universo de autómatos."
O filme é hoje, como o foi nos anos 30, um comentário brilhante à sobrevivência humana nas condições económicas, industriais e sociais adversas do século XX e, talvez, do próprio século XXI.

02/05/10

L´Age d´Or (1930)


Não é de espantar que o filme tenha despertado emoções contraditórias e uma controvérsia entre os surrealistas e organizações de extrema direita, as quais realizaram manifestações, que deram origem por exemplo a estragos em salas de cinema, à proibição da exibição da película por parte da polícia, a polémicas críticas e políticas violentas. É famosa a intervenção de Henry Miller que, sobre o filme e o seu realizador, disse: “ Ou somos feitos como o resto da humanidade civilizada, ou somos orgulhosos e íntegros como Buñuel. Se formos orgulhosos e íntegros, seremos então também anarquistas e atiraremos bombas.”
A Idade do Ouro legou-nos algumas das imagens mais inesquecíveis do cinema: os bispos mumificados; a vaca em cima de uma cama, numa mansão elegante da alta burguesia;Lya Lys a chupar o dedo do pé de uma estátua.
Buñuel põe em causa todo o poder exercido pela religião, pela família, pela política e pela sociedade em geral.Cria imagens surrealistas que visam libertar o homem das amarras impostas pelo moralismo da sociedade e suas instituições.
Este foi o segundo filme de Buñuel, o primeiro sonoro. Dois anos antes, com Um Cão Andaluz, Buñuel fizera uma curta experimental fruto de dois sonhos que ele e Dali tiveram e que se viria a tornar num filme-manifesto do surrealismo.
A Idade do Ouro é uma película que existe fora do tempo e cujo poder de perturbar e chocar não se desgasta com o passar dos séculos.