
“O Lago dos Cisnes” conta-nos a história de uma rapariga presa no corpo de um cisne branco de onde só o amor a pode libertar. Até que, a certa altura, o Cisne Preto afasta o cisne Branco do Príncipe, suicida-se e encontra finalmente a sua libertação. Em suma, este é o mote dado para todo o enredo do "Black Swan".
Aronofsky, deixa-nos rendidos perante este filme completamente arrebatador, sobre mais uma viagem pela mente humana e seus conflitos interiores. É um realizador absolutamente admirável na arte de contar histórias, filmar. A narrativa é forte e intensa, não deixa ninguém indiferente.
"Black Swan" expõe de uma forma sublime como um distúrbio de comportamento pode condicionar o equilíbrio emocional e toda a vida em sociedade.
Nina (a exímia Natalie Portman) vê-se sempre de fora e não como realmente se sente. A conversa no bar, com o rapaz que acabou de conhecer, é bem representativa disso. Quando ele lhe pergunta quem ela é, e ela responde: bailarina, e só a seguir menciona o seu nome. Nina só conseguiu chegar à verdade, quando passou a ver a vida pelos próprios olhos, desligando-se da maneira como, a seu ver, os outros olhavam para ela, abstraindo-se do que pensavam dela.
Nina entra em conflito consigo mesma, quando por um lado busca atingir a pureza e a perfeição absoluta, que é imposta pela mãe, Érica (Barbara Hershey) também em tempos bailarina, que abdicou de o ser para a ter, e que projecta na filha tudo aquilo que não conseguiu ser, tratando-a de uma forma obsessiva como se fosse uma criança, por outro há a ambição de se transpor para o lado mais obscuro e subversivo da vida, indicado pelo professor. A dualidade permanece em constante conflito no argumento do filme, o cisne preto e o cisne branco, a mãe e o professor, o bom e o mau, a luz e a escuridão.
Nina pretendia substituir a conceituada e principal bailarina Beth Macintyre (Wynonda Rider) que tinha sido afastada devido à idade.
O papel de cisne branco seria sempre seu. Nina, consegue-o realizar na perfeição, mas falta-lhe rasgo, ousadia, soltar as garras para conseguir encarnar a personagem de cisne preto no estrondoso bailado de Tchaikovsky. O facto é que Nina só consegue desabrochar realmente quando, impelida pelo professor, Thomas Leroy (Vincent Cassel), descobre a sua própria sexualidade, consegue desabrochar, transformar-se e sentir-se uma verdadeira artista.
É significativo e simbólico, como um instante de corte e transição, o momento em que ela retira do seu quarto todos os bonecos, que se espalhavam pelo seu quarto.
Nina vive dividida entre duas personalidades, tal como se passava no "Fight Club" de David Fincher, mas num corpo só há lugar para uma. Ela acaba por eliminar tudo aquilo que a reprime, só assim o cisne negro pode voar.
A cena em que Nina se transforma em cisne negro, a lembrar "Fly" de Cronenberg, o filme está repleto de cenas a lembrar outros filmes, é uma das cenas mais belas, devidamente acompanhada com a música sublime de Clint Mansell.
No final, em perfeita apoteose chovem os aplausos para Nina/ Natalie Portman , num final trágico. Desce o pano e encerra-se ali não só o fim de um bailado mas o ciclo de uma vida.
É um filme onde por vezes é ténue a fronteira entre a realidade e a imaginação, a loucura e a lucidez. Mais uma vez Aronofsky confronta-nos com uma experiência emocional e sensorial avassaladora e inesquecível.