Last Days retrata o último período da vida do maior ícone do movimento grunge, e uma das maiores referências do rock dos anos 90, Kurt Cobain, líder dos Nirvana. A inspiração foi o suicídio de Cobain, mas a fita desliga-se de qualquer concretização e filma os derradeiros dias de alguém que está, nitidamente, num processo de autodestruição. Este filme fala sobre a meditação no isolamento, na morte e na perda. Divaga sobre o lugar de um mundo muito pessoal e intimista numa atmosfera controversa. É uma obra cinematográfica de grande qualidade, que segundo o próprio autor, fecha uma trilogia denominada ciclo da morte (sendo os outros dois filmes: "Gerry", de 2002, e "Elephant", de 2003).
Fui convidada pelo Roberto Simões do blogue “Cineroad – A estrada do cinema” para participar numa iniciativa intitulada ”3 grandes obras subvalorizadas”, que consiste em cada convidado destacar três filmes à escolha, os quais não tenham sido devidamente valorizadas no mundo do cinema, na década de 2000. É mais um projecto, que se apresenta como mais uma oportunidade de bloggers colaborarem entre si. Agradeço, desde já, ao Roberto pela honra do convite que me fez. Recomendo vivamente que visitem o Cineroad e comentem.
Estas foram as minhas escolhas:
Zui Hao de Shi Guang (2005) de Hou Hsiao Hsien Alexandra (2007) de Aleksandr Sokurov Cztery noce z Anna (2008) de Jerzy Skolimowski
A estreia de Luís Buñuel na realização feita em parceria com o pintor Salvador Dali, está gravada na história do cinema, por muitos motivos, mas acima de tudo devido à imagem que nos ocorre quando nos lembramos do filme: a de uma uma lâmina que corta um olho ao meio. Muito se especula sobre o significado desta imagem emblemática. Para uns é uma táctica de choque, para outros um símbolo da visão modernista, para outros um exemplo da violência masculina sobre as mulheres, e ainda para outros, um anúncio de um nova visão da realidade. Uma coisa é certa, a imagem, bem como todo o filme, possui um forte carácter onírico com claras influências da psicanálise, Buñuel e Dali exploram o inconsciente humano. Un Chien Andalou tem sido reduzido demasiadas vezes a uma sequência de imagens impressionantes, que para muitos poderá parecer desconexa e incongruente: um cavalo morto sobre um piano ou formigas a sair de uma mão. É esquecido deste modo o que dá à obra coerência, uma narrativa que faça sentido, por entre os fragmentos do inconsciente do espectador. A realidade que interessa aos surrealistas. Até ao fim da sua carreira, Buñuel nunca deixou de explorar esta dialéctica entre a racionalidade e as forças profundas do id.
The Chameleons actuam hoje, no Santiago Alquimista, em Lisboa, 25 anos depois de terem tocado na capital, no Rock Rendez-Vous. A banda de Mark Burgess surgiu em Manchester em 1981 na vaga pós-punk do Reino Unido, pouco tempo de depois de outros projectos como Echo & The Bunnymen e The Cure.
O primeiro álbum de estúdio, "Script of the Bridge", data de 1983 e é considerado o melhor da carreira dos Chameleons, somando-se a ele várias sessões que gravaram com o radialista e divulgador John Peel.
Um ano depois da estreia discográfica passaram por Portugal para tocar, em 1984, no Rock Rendez-Vous.
O grupo rompeu em 1987 e só voltou a ser reactivado no virar do milénio com a edição dos registos "Strip" (2000) e "Why call it anything" (2001), embora nos anos 1990 tenham sido lançados vários álbuns gravados ao vivo.
Interpol, The Horrors e Blacklist são alguns dos projectos mais recentes a quem são atribuídas influências dos Chameleons.
Do grupo fazem parte Mark Burgess (voz e baixo), Reg Smithies (guitarra eléctrica), Dave Fielding (guitarra elétrica) e John Lever (bateria).
Estamos perante a terceira longa-metragem de Abdel Kechiche um realizador de origem Tunisina, mas radicado em França. O filme é reflexo dessa realidade social, a integração num novo território e as relações dentro do seio familiar árabe. A história centra-se em Slimane Beiji, com os seus sessenta anos, divorciado, que tenta sobreviver ao despedimento dos estaleiros onde sempre trabalhou, às tensões com a sua família e às dificuldades financeiras. Beiji deixa para trás o emprego no estaleiro local para concretizar um sonho de longa data, abrir um restaurante num velho barco, o único bem que possui e que tenta reconstruir com a ajuda dos filhos e de Rym, filha da sua companheira. O filme tem cenas memoráveis como, no final, a cena da dança de Rym, a conversa desta com Beiji e a cena da longa conversa que Rym com a sua mãe. Filme realizado com meios muito escassos, mas grandioso pela forma como capta por um lado a cumplicidade humana, o sentimento de pertença, os valores, os sonhos partilhados, e por outro o ódio e a xenofobia. Não é à toa que Hafsia Herzi, na pele de Rym, recebeu o prémio de Actriz Mais Promissora nos Césares,bem como também foram atribuídas as outras três distinções a ”La Graine et le Mulet” no mesmo evento (Melhor Realizador, Argumento e Filme) ou o Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza de 2007.
O Interpol lançou, esta semana, no seu site oficial, o clipe da música "Lights". Este é o primeiro single do novo álbum homônimo da banda. O vídeo foi dirigido por Charlie White, que já trabalhou com o Interpol no clipe de "Evil". Este será o sucessor do disco de 2007 do grupo, Our Love to Admire. O novo álbum que sai para as lojas a 14 de Setembro será o último a contar com o ex-baixista Carlos D, este será substituído pelo ex-Slint David Pajo. Juntamente com David Pajo entra também Brandon Curtis, membro dos Secret Machines. Na última segunda-feira, 21, o Interpol deu o seu primeiro concerto em dois anos, em Nova York, já com o novo baixista, Pajo, e o teclista Curtis.
Em 1986 Jarmusch começou a trabalhar neste projecto que o levou numa direcção bastante diferente do que tinha realizado até à altura: uma série de curta-metragens , que deram pelo nome de Coffe and Cigarettes. As curtas são deliciosamente divertidas, tudo é filmado com poucas preocupações em preto e branco, e escritos com um ouvido apurado para as banalidades absurdas das pequenas conversas do dia a dia. O valor destas conversas, além das suas observações cómicas, é o facto de que Jarmusch consegue fazer tanto com tão pouco, usando apenas grandes planos, planos com duas pessoas e ocasionalmente planos picados sobre a mesa com café e os cigarros, foca a atenção directamente nos personagens e nas suas tentativas perturbadas de simpatizarem um com o outro. O filme conta com a participação de vários actores e artistas sonantes do mundo do cinema e música como Tom Waits, Iggy Pop, Roberto Benigni, Bill Murray, Cate Blanchett e Steve Coogan. O filme acaba por ser uma apologia ao direito de escollha, para vícios como fumar ou tomar café. E é mesmo verdade, no fim de vermos o filme ficamos com vontade de tomar um café e fumar um cigarro.
Esta é a capa do novo álbum dos Black Keys. E esta, já abaixo, é uma música gravada em Alabama Muscle Shoals´s Sound Studio, dos Black Keys. Esta musica chama-se Too Afraid To Love You.
Too Afraid To Love You, The Black Keys
"Brothers" (2010)
Para além do disco "Brothers", os Black Keys editaram ainda um split-single com os Devo, tendo como tema o seu estado-mãe, o Ohio. É também esse o nome da música gravada pelos Black Keys nessa colaboração e que a banda oferece no seu site [ligação].
Häxan, o célebre “documentário” de 1922, realizado pelo cineasta dinamarquês Benjamin Christensen, é uma película muda, bizarra e excêntrica que explora a evolução da bruxaria desde a Pérsia antiga até ao início do século XX. Obra prima do cinema fantástico. O filme documenta as perseguições movidas contra as feiticeiras numa Europa atravessada pela intolerância religiosa e pela inquisição. Häxan foi feito a partir de uma série de quadros inspirados em Hieronymus Bosch e Pieter Bruegel. Häxan é considerado o mais importante antepassado de películas de possessão demoníaca como, por exemplo, “O Exorcista”(1973). O filme tornou-se um favorito do surrealismo. A sua influência fez-se notar em filmes como “L´Age d´Or” (1930) de Luís Bunuel. Os produtores do filme "The Blair Witch Project" (1999), deram o nome de "Häxan Films" à sua produtora. Não espanta o apreço que os surrealistas nutriam por esta película, nem sequer com a notoriedade que adquiriu no final dos anos sessenta, quando foi lançada como um filme da meia-noite, cuja narração estava a cargo de William S. Burroughts.
O último filme mudo de Dreyer, a sua obra prima e a película mais perfeita sobre Joana d ´Arc é um filme sublime. Este é o cinema no estado puro, não há artifícios. Todo o filme é filmado quase exclusivamente em grandes planos que dão uma enorme densidade interior às personagens. A melhor forma de espelhar toda a espiritualidade. Joana interpretada por Renée Falconetti , desempenhou o seu papel sem qualquer maquilhagem, pois Dreyer entendia que sua aplicação iria ocultar o realismo. Este é considerado um dos melhores trabalhos realizados no cinema. É simplesmente magistral. Alegria, tristeza, esperança, medo e tantas outras emoções humanas são perfeitamente caracterizadas por Falconetti apenas por expressões de seu rosto. Todos os filmes de Dreyer se tinham baseado, até à altura, em obras de ficção ou peças de teatro, excepto este que foi inspirado em manuscritos oficiais do processo de julgamento da donzela de Orleães, ou melhor em partes muito comprimidas desse processo. A história passa-se num único dia, no interior de um tribunal, exceptuando uma ou outra cena no exterior. Joana D' Arc defende a sua fé com uma convicção inabalável diante de juízes e teólogos. O lado humano de Joana D' Arc é confrontado com o lado desumano dos juízes que a julgam, com o intuito de a subjugar.Os juízes representam a inflexibilidade da Igreja diante a ameaça que ela representa aos seus interesses. É presa, humilhada, torturada e interrogada da maneira impiedosa por um tribunal eclesiástico, que a levou, involutariamente a blasfemar. É colocada na fogueira e morre por Deus e pela França.
Central do Brasil é um filme belíssimo. É uma história comovente, é certo, mas sem falsos preconceitos descobrimos um bom realizador e actuações magníficas, desde a Fernanda Montenegro ao pequeno Vinícius de Oliveira. Todos excelentes. Mas o mais surpreendente, é a construção da obra. Notável o arranque do filme com rostos anónimos a relatar o conteúdo das cartas. Dora é uma cinquentenária solitária, professora, aposentada, céptica e sarcástica, que sobrevive escrevendo cartas por encomenda no gare central do Rio de Janeiro. Ela ouve o Brasil miserável e passa a letra de forma os secretos desejos e as frustrações mais intimas deste povo. Desiludida da vida, Dora recebe de cada cliente um real para escrever e outro para pôr a carta no correio, o que nunca, ou raramente, faz. Expediente fácil, é certo, mas também forma de prolongar a sua profunda descrença nos outros. Ela “sabe” que o marido lá longe é um alcoólico, que a namorada o atraiçoa, que o amigo não o é, que o pai já morreu. Sem esperanças pessoais Dora não vê qualquer necessidade de prolongar as esperanças dos outros. Nem interesse em gastar selos em cartas que nunca receberão resposta. Ela “sabe”. Por isso rasga logo que chega a casa, depois de as ler com Irene, sua companheira de apartamento. Uma ou outra deixa passar o tempo sobre elas, numa gaveta, onde as enterra, à espera de resolução. Dora é uma mulher fria, dura, implacável. Dora é o espelho do Brasil de hoje.
O filme que marcou a primeira aparição de Drácula nos ecrãs permanece a mais assustadora e mágica de todas as versões desta história. Drácula de Brain Stoker, foi fonte de inspiração de um dos filmes mudos mais extrordinários de sempre. Murnau já se tinha tornado uma estrela do movimento expressionista alemão , quando decidiu passar para filme Drácula, cujo nome teve de ser alterado para Nosferatu em virtude de ameaças de procedimentos legais.Murnau usou o romance sem permissão e foi processado por violação dos direitos de autor. Por pouco não escapou a uma sentença do tribunal que ordenava a destruição de todas as suas cópias .
Uma das causas da superioridade de Nosferatu em relação a outros filmes acerca de Drácula é a presença impressionante do actor Max Schreck. Murnau criou algumas das imagens mais inesquecíveis do cinema com o Conde Orlok arrastando-se no seu castelo, rodeado de sombras arrepiantes e em perseguição de Hutter. A sua figura pouco difere dos ratos que comanda, quando passeia em busca de sangue. Grande parte do filme foi rodada em exteriores, com uma técnica de iluminação adaptada da pintura, onde o contraste entre as áreas escuras e claras é realçado criando uma atmosfera gótica. Todo o suspense no filme é criado de forma fabulosa por Murnau que nos carrega até uma história do fantástico do melhor que já foi feito no cinema de terror.
Não se trata de uma biografia, mas de um álbum, graficamente bem trabalhado, com fotografias da banda e depoimentos de amigos e admiradores anónimos. Inclui um DVD, com um espectáculo gravado ao vivo, telediscos e um documentário. Não é a primeira vez escrevo aqui sobre A Naifa. Porque vale a pena, vale a pena ouvir com ouvidos de escutar. Descobriram um caminho para de forma consistente, criar um fado contemporâneo. Nos dois primeiros discos, Canções Subterrâneas(2004) e 3 Minutos Antes de a Maré Encher(2006),tiveram o bom gosto de temperar as músicas com nova poesia portuguesa, de Adília Lopes, José Luís Peixoto, José Mário Silva, Tiago Gomes, entre outros. Tornaram-se numa das poucas bandas de culto em Portugal. Há pouco mais de um ano morreu, estupidamente cedo, aos 39 anos, um dos seus mentores, João Aguardela, que foi uma figura única na busca incessante de uma nova tradição musical, também com os Sitiados e o Projecto Megafone. Os outros elementos do grupo, Luís Varatojo, Mito ficaram sós. Ainda bem que Luís Varatojo se debateu por fixar em livro a existência do grupo. O livro-DVD "Esta depressão que me anima" é um registo que conta com a colaboração de poetas, amigos e anónimos, que agora terão a oportunidade de ver as suas palavras publicadas, nesta edição de autor de apenas 500 exemplares.
Grey Age, nasce da conjugação de ideias e propósitos, tendo como essência o pulsar da riqueza musical dos anos oitenta e toda a sua envolvência inerente. Não funcionando este blogue como escola, mas apenas como retiro, onde todos podem absorver, inscrever ideias e opiniões, originando a partilha de inúmeras experiências enriquecedoras, referentes a um período que nos marcou e continua a marcar para sempre...
Depois de grande filmes, desde A Aventura até O Deserto Vermelho, Michelangelo Antonioni tornou-se um cineasta internacional com este filme, filmado na Swinging London da década de 60. O seu primeiro filme em inglês foi baseado no conto de Julio Cortazar. Antonioni capta com exactidão um tempo e um lugar que pareciam culturalmente significativos. Tal como o filme A Doce Vita, de Fellini, a obra pretende lançar um ataque a um certo tipo de sofisticação e vazio modernos. Thomas (David Hemmings) é um fotógrafo de moda, arrogante, insensível e obcecado pela sua profissão. Thomas reflecte o alter-ego de Antonioni, retratado sem concessões. O seu extraordinário sentido estético é revelado através dos seus belíssimos enquadramentos. A banda sonora é da autoria de Herbie Hancock, e podemos ouvir os lendários Yardbirds a tocar em partes.
É o mais antigo festival em Portugal e a sua primeira edição foi em 1971. Apenas em 1982 se realizou o segundo. Fui uma das sortudas a participar neste festival.Guardo óptimas recordações daqueles dias. Memorável a Terça-feira!
O mais controverso filme de Stanley Kubrik, um crítica social feroz em forma de ficção cientifica realizada em 1971. Foi retirada pelo próprio autor de circulação do Reino Unido durante cerca de 30 anos. É uma transposição do romance opressivo de Anthony Burgess para o cinema. Delinquente mas esperto, Alex De Large (Macolm McDowell) excita-se com pornografia, Beethoven e diverte-se a liderar o seu bando “Droogs”, vestido de chapéu de coco e de branco, tem rasgos de forte violência durante as quais fala uma linguagem muito especial. Após os seus actos violentos vemos a sua punição e a sua “reabilitação” sob a forma de um cobarde e lambe botas, que acaba por ser tão assustadora como as malvadezas dos Droogs. Torna-se uma sátira acérrima à hipocrisia, corrupção e sadismo da sociedade em geral. Procurando sair da prisão Alex oferece-se para uma terapia experimental , sendo sujeito a uma cura de comportamento. Amarrado com correias e os globos oculares totalmente expostos, procura-se suprimir as suas tendências violentas, mas por outro lado fica privado de toda a sua humanidade, torna-se um indivíduo fragilizado. De regresso ao mundo, é atraiçoado pelos seus colegas, que se tornaram polícias, passa a sofrer com aqueles que antes eram as vítimas. Esta é uma obra única que tanto nos faz sentir repulsa como nos faz sentir carinho por Alex . Consegue encarnar todos os males da sociedade de diversas formas. Estão lá todas as pulsões mais reprimidas dos nossos intintos. É um ser que nunca tem consciência do bem e do mal, está para além da moral. Diverte-se à custa do sofrimento alheio. É um demónio. "A Laranja Mecânica" é uma obra de extremos, bela e repugnante, cómica e trágica, um filme único. A crítica de Kubrick, mordaz não poupa instituições como a Igreja, o Estado, o Exército ou a Polícia. Kubrick é um dos poucos realizadores marxistas. Nunca precisou de assinar manifestos ou de marchar em protestos para assumir a sua ideologia que aparece de forma subtil na sua filmografia. Os seus heróis lutam, igualmente, contra as várias máquinas que a sociedade coloca nos seus caminhos, sejam elas a máquina política, a máquina militar, a máquina religiosa, ou mesmo a máquina capitalista. Ao mesmo tempo, a sexualidade, a libertação máxima do ser humano, e por isso mesmo tão reprimida pela Igreja e pelo Estado, surge nos filmes de Kubrick livre de preconceitos, onde Eyes Wide Shut é o exemplo perfeito. O olho e o olhar, o sexo e a violência, o papel do Estado e a maneira pouco democrática como este actua sobre os cidadãos, o gozo com a polícia, todas estas premissas atravessam Laranja Mecânica e obrigam-nos a pensar e a meditar.
O Arcade Fire apresentou o seu novo single, que sai na semana que vem, de uma maneira um tanto ao quanto curiosa. Através de uma animação no seu site, que reproduz um gira-discos, onde é possível girar o vinil com o rato e ouvir as novas canções. Com um pouco de paciência e entre muitos ruídos involuntários aparecem fragmentos das faixas que formarão o novo single dos canadenses, “Suburbs” e “Month of May”. Desde o inicio de Maio o Arcade Fire têm deixado pistas do que está preparando para o 3º álbum. Segundo a rádio australiana Triple J, a banda já gravou cerca de 38 músicas com o produtor Nick Launay e a previsão de lançamento é no final de Julho.
Tudo começa quando a família que o filme acompanha, desde logo exibindo a sua natural disfuncionalidade,se tal é permitido afirmar, exibida no facto de se ter isolado num espaço, se confronta com uma terrível realidade: a passagem de uma nova auto-estrada literalmente à sua porta. A metáfora civilizacional é evidente.A cineasta limita-se ao essencial, isto é aquilo que permanece hoje actual na eterna disputa entre o homem e a máquina. Ursula Meier lança-se pela primeira vez numa longa-metragem de ficção. Quer no domínio narrativo, como no sentido visual, mas também na sonoridade, a cineasta exibe uma profunda sensibilidade humanista que se prende com a construção das personagens tornando o filme pertinente e aliciante. Este é desde logo um filme diferente, pelo facto de ter como protagonista Isabelle Huppert, uma actriz habituada a trabalhar com os maiores, mas também com aqueles que considera autores do futuro.
Os filmes de David Lynch podem ser considerados enigmáticos, esquisitos e até um pouco paranóicos , mas a mim agradam-me. Gosto de todos que vi, mas sobretudo de BlueVelvet. O facto de ter sido o primeiro que visionei, pode ter contribuído para o impacto que teve em mim. O filme apareceu depois de Eraserhead, Homem –Elefante, WildatHeart e a série TwinPeaks( a qual eu nunca perdia). Tudo obras de culto e referência, hoje em dia. BlueVelvet é um filme todo ele direccionado numa linha entre o filmnoir e o surrealismo tão característico de David Lynch. Se por um lado temos um mundo de aparente normalidade, temos por outro um universo obscuro e pesado. Com a relação entre Jeffrey Beaumont(KyleMacLachlan) e SandyWillims (Laura Dern) é-nos fornecida a lufada de ar necessária para carregar o ambiente de mistério e suspense que se vive nas cenas que envolvem a cantora de salão DorothyVallesn e o psicopata Frank Booth. IsabellaRosselini, uma mulher desfeita, vítima de maus tratos por parte de Frank. Tem uma actuação fabulosa. Mas DennisHopper é quem mais surpreende agarrando o relançamento da carreira de Lynch. Foi assim consagado o maior vilão de sempre na história do cinema. As cenas em que usa a máscara de oxigénio são inesquecíveis. Deslumbram um carácter por demais preverso e sórdido. A música, como sempre, nos filmes de Lynch ocupa um lugar de destaque. Para além da escolha criteriosa dos temas “BlueVelvet” de BobbyVinton, e de “Dreams” de Roy Orbison, o filme conta com a colaboração de AngeloBadalamenti. Este é um filme que se destina não só aos adeptos do cinema independente, mas também aos fãs de Hitchcock. É incontornável a comparação com os temas e processos do mestre do suspense. Não só pelo voyeurismo, mas também pelo humor negro e pelo inesperado desenlace.
Considerada a melhor orquestra latina nascida nos Estados Unidos na última década, o Grupo Fantasma (EUA) apresenta-se no palco da Avenida Vasco da Gama na madrugada de 29 de Julho. Nascida no ano 2000 em Austin, Texas, junta a cumbia, a salsa, o bolero, o son montuno a estilos com o afro-funk, o jazz, a música psicadélica e o reggae. Com quatro Prémios Univisión de Musica Latina e a nomeação do seu quarto disco, “Sonidos Gold” (2008), para o Grammy de melhor disco de rock latino em 2009, o cantor e compositor José Galdeano e os seus nove companheiros chegam ao final da sua primeira década de vida com a crítica rendida à sua “versão séc. XXI do groove latino” (Boston Globe). Em Sines já se vão poder ouvir os temas de “El Existencial”, o quinto disco, que o grupo lança em Maio. Também uma estreia em Portugal.
Tal como com outros destacados exemplos do cinema de autor europeu dos anos 60, muita da discussão crítica de A Máscara, de Ingmar Bergman, classificou-o como obscuro e impossível de captar por palavras. É certo que o realizador queria que o seu filme fosse um poema visual, e preparou a famosa sequência do género de abertura para acentuar isso. A sequência funciona como um resumo introdutório do perfil artístico de Bergman, como se ele quisesse armazenar e começar tudo de novo. De facto, todo o filme pode ser visto como uma etapa para um beco sem saída existencial . A intriga de A Máscara é construída como um jogo de poder. Inicialmente a mais forte das duas mulheres parece ser a enfermeira psiquiátrica Alma (Bibi Andersson), especialmente porque parece segura de si e só ela fala tomando o controlo das coisas. Mas face à sua enigmática doente, a famosa actriz Elizabet Vogler (Liv Ulman) a atitude estável de Alma começa a derrocar. As suas conversas terapêuticas transformam-se em confissões dos seus desejos e segredos. Gradualmente ela é despida da sua própria persona, máscara de mentiras e dá um significado à sua existência. O clímax de A Máscara chega numa famosa cena onde as duas mulheres se sentam uma em frente uma à outra, ambas com idênticas roupas negras. Alma começa a falar da rejeição de Elizabet à maternidade e ao casamento, e depressa se vê a falar das suas próprias duvidas sobre a vida de família que ela desejava. Ao constatar isso, tenta retomar o controlo, mas só consegue produzir frases incoerentes. É nesta altura que Bergman usa o efeito óptico de fazer a fusão dos rostos das duas mulheres numa imagem perturbada. O filme termina logicamente com Alma a fazer a única coisa que pode para recontruir a sua vida: regressa ao mundo comum e rejeita Elizabet como a outra. Na cena final voltamos ao hospital. Alma agora com o seu antigo uniforme e persona obrigando a Elizabet a repetir a palavra nada. De volta ao rapazinho na morgue (o filho indesejado de Elizabet? O feto abortado de Alma?). E então o projector pára. Escuridão.
Carole é uma estrela de cinema. Vive sozinha porque o seu marido a abandonou e foi para Hollywood. Um fotógrafo vai a casa dela fazer uma reportagem para um jornal. Tornam-se amantes. Em A Fronfeira do Amanhecer Garrel aborda a aura, mostra-nos pessoas diferentes de uma certa realidade. Pessoas que dormem e sonham e não vivem o presente. Philippe Garrel usa frequentemente os grandes planos, rostos, o amor concentrado, as peripécias do sentimento, o ciúme, as cartas, as camas, o castigo do amor e até o choro. Uma referência especial à forma como Garrel trabalha a luz nos rostos das personagens e a forma como a voz surge em certas imagens.
A abordagem do amor, os problemas da passagem de um outro amor que chama em forma de fantasma, ou na fronteira da sombra e que é seguida de uma forma brilhante. Uma nota para a excelência de fotografia de William Lubtschansky, que participou em filmes de Jean-Luc Godard e Jaques Rivette entre outros.
O compositor italiano Ennio Morricone e a cantora islandesa Björk receberam em Estocolmo o prémio Polar, considerado o Nobel da música. A decisão destacou a "marca indelével" que Björk fez ao pop e a cultura moderna com a sua música e letras "profundamente pessoais", assim como "nenhum outro músico se movimenta tão livremente entre a vanguarda e o pop". Nascido em Roma em 1928, Morricone conquistou sucesso a partir de suas colaborações nos filmes como “Por um punhado de dólares” (1964), “Aconteceu no Oeste” (1968) e “Era uma vez na América” (1984), todos de Sergio Leone, ou “Cinema Paraíso” (1988), de Giuseppe Tornatore. Ennio Morricone “construiu uma novo género musical que marcou a composição para cinema ao longo de meio século”. Compôs a música de mais de 450 filmes, trabalhando com directores como Gillo Pontecorvo, Pier Paolo Pasolini, Bernardo Bertolucci, Giuseppe Tornatore, Brian De Palma, Roman Polanski, Warren Beatty, Oliver Stone e Pedro Almodóvar. Björk (Reykjavík, 1966) ganhou reconhecimento internacional no final dos anos 80, com sua banda The Sugarcubes, que abriu as portas para sua bem-sucedida carreira solo em 1993. Ennio Morricone e Bjork receberão o prémio, no valor um milhão de coroas (cerca de 100 mil euros) cada, numa gala agendada para 30 de Agosto em Estocolmo. O prémio Polar foi criado em 1989 por Stig Andersson, editor, compositor e representante dos ABBA. Desde que em 1992, quando começou a ser entregue, o Polar já premiou intérpretes como B.B. King, Keith Jarrett, Bob Dylan, Ray Charles, Pierre Boulez, Elton John, Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Pink Floyd, Dizzy Gillespie e até Gilberto Gil.
“O medo corrói a alma” é um filme que se torna poderoso pelas questões que aborda, tão caras à Alemanha. Fassbinder percebeu a necessidade de trabalhar este assunto, pelo facto do seu companheiro El Hedi, o próprio actor principal do filme, estar a passar por uma experiência xenófoba. A ideia de que a Alemanha Ocidental tinha preconceitos de raça, religião e etnia prevalece até hoje. Nos finais dos anos 70 a xenofobia era facilmente percebida por imigrantes oriundos de países subdesenvolvidos. Foi precisamente isso que Fassbinder sabiamente captou. A ideia inicial era ser ele próprio a contracenar com o seu companheiro. Mas tal não seria tão bem vindo. Optou por abordar a questão com um imigrante e uma mulher alemã. Uma mulher de sessenta e tal anos e um marroquino, vinte anos mais novo. Ambos pertenciam a grupos minoritários e desprezados pela sociedade: a idosa e o imigrante. Duas pessoas deslocadas no mundo em busca de uma razão.