Grey Age, nasce da conjugação de ideias e propósitos, tendo como essência o pulsar da riqueza musical dos anos oitenta e toda a sua envolvência inerente. Não funcionando este blogue como escola, mas apenas como retiro, onde todos podem absorver, inscrever ideias e opiniões, originando a partilha de inúmeras experiências enriquecedoras, referentes a um período que nos marcou e continua a marcar para sempre...
Depois de grande filmes, desde A Aventura até O Deserto Vermelho, Michelangelo Antonioni tornou-se um cineasta internacional com este filme, filmado na Swinging London da década de 60. O seu primeiro filme em inglês foi baseado no conto de Julio Cortazar. Antonioni capta com exactidão um tempo e um lugar que pareciam culturalmente significativos. Tal como o filme A Doce Vita, de Fellini, a obra pretende lançar um ataque a um certo tipo de sofisticação e vazio modernos. Thomas (David Hemmings) é um fotógrafo de moda, arrogante, insensível e obcecado pela sua profissão. Thomas reflecte o alter-ego de Antonioni, retratado sem concessões. O seu extraordinário sentido estético é revelado através dos seus belíssimos enquadramentos. A banda sonora é da autoria de Herbie Hancock, e podemos ouvir os lendários Yardbirds a tocar em partes.
É o mais antigo festival em Portugal e a sua primeira edição foi em 1971. Apenas em 1982 se realizou o segundo. Fui uma das sortudas a participar neste festival.Guardo óptimas recordações daqueles dias. Memorável a Terça-feira!
O mais controverso filme de Stanley Kubrik, um crítica social feroz em forma de ficção cientifica realizada em 1971. Foi retirada pelo próprio autor de circulação do Reino Unido durante cerca de 30 anos. É uma transposição do romance opressivo de Anthony Burgess para o cinema. Delinquente mas esperto, Alex De Large (Macolm McDowell) excita-se com pornografia, Beethoven e diverte-se a liderar o seu bando “Droogs”, vestido de chapéu de coco e de branco, tem rasgos de forte violência durante as quais fala uma linguagem muito especial. Após os seus actos violentos vemos a sua punição e a sua “reabilitação” sob a forma de um cobarde e lambe botas, que acaba por ser tão assustadora como as malvadezas dos Droogs. Torna-se uma sátira acérrima à hipocrisia, corrupção e sadismo da sociedade em geral. Procurando sair da prisão Alex oferece-se para uma terapia experimental , sendo sujeito a uma cura de comportamento. Amarrado com correias e os globos oculares totalmente expostos, procura-se suprimir as suas tendências violentas, mas por outro lado fica privado de toda a sua humanidade, torna-se um indivíduo fragilizado. De regresso ao mundo, é atraiçoado pelos seus colegas, que se tornaram polícias, passa a sofrer com aqueles que antes eram as vítimas. Esta é uma obra única que tanto nos faz sentir repulsa como nos faz sentir carinho por Alex . Consegue encarnar todos os males da sociedade de diversas formas. Estão lá todas as pulsões mais reprimidas dos nossos intintos. É um ser que nunca tem consciência do bem e do mal, está para além da moral. Diverte-se à custa do sofrimento alheio. É um demónio. "A Laranja Mecânica" é uma obra de extremos, bela e repugnante, cómica e trágica, um filme único. A crítica de Kubrick, mordaz não poupa instituições como a Igreja, o Estado, o Exército ou a Polícia. Kubrick é um dos poucos realizadores marxistas. Nunca precisou de assinar manifestos ou de marchar em protestos para assumir a sua ideologia que aparece de forma subtil na sua filmografia. Os seus heróis lutam, igualmente, contra as várias máquinas que a sociedade coloca nos seus caminhos, sejam elas a máquina política, a máquina militar, a máquina religiosa, ou mesmo a máquina capitalista. Ao mesmo tempo, a sexualidade, a libertação máxima do ser humano, e por isso mesmo tão reprimida pela Igreja e pelo Estado, surge nos filmes de Kubrick livre de preconceitos, onde Eyes Wide Shut é o exemplo perfeito. O olho e o olhar, o sexo e a violência, o papel do Estado e a maneira pouco democrática como este actua sobre os cidadãos, o gozo com a polícia, todas estas premissas atravessam Laranja Mecânica e obrigam-nos a pensar e a meditar.
O Arcade Fire apresentou o seu novo single, que sai na semana que vem, de uma maneira um tanto ao quanto curiosa. Através de uma animação no seu site, que reproduz um gira-discos, onde é possível girar o vinil com o rato e ouvir as novas canções. Com um pouco de paciência e entre muitos ruídos involuntários aparecem fragmentos das faixas que formarão o novo single dos canadenses, “Suburbs” e “Month of May”. Desde o inicio de Maio o Arcade Fire têm deixado pistas do que está preparando para o 3º álbum. Segundo a rádio australiana Triple J, a banda já gravou cerca de 38 músicas com o produtor Nick Launay e a previsão de lançamento é no final de Julho.
Tudo começa quando a família que o filme acompanha, desde logo exibindo a sua natural disfuncionalidade,se tal é permitido afirmar, exibida no facto de se ter isolado num espaço, se confronta com uma terrível realidade: a passagem de uma nova auto-estrada literalmente à sua porta. A metáfora civilizacional é evidente.A cineasta limita-se ao essencial, isto é aquilo que permanece hoje actual na eterna disputa entre o homem e a máquina. Ursula Meier lança-se pela primeira vez numa longa-metragem de ficção. Quer no domínio narrativo, como no sentido visual, mas também na sonoridade, a cineasta exibe uma profunda sensibilidade humanista que se prende com a construção das personagens tornando o filme pertinente e aliciante. Este é desde logo um filme diferente, pelo facto de ter como protagonista Isabelle Huppert, uma actriz habituada a trabalhar com os maiores, mas também com aqueles que considera autores do futuro.
Os filmes de David Lynch podem ser considerados enigmáticos, esquisitos e até um pouco paranóicos , mas a mim agradam-me. Gosto de todos que vi, mas sobretudo de BlueVelvet. O facto de ter sido o primeiro que visionei, pode ter contribuído para o impacto que teve em mim. O filme apareceu depois de Eraserhead, Homem –Elefante, WildatHeart e a série TwinPeaks( a qual eu nunca perdia). Tudo obras de culto e referência, hoje em dia. BlueVelvet é um filme todo ele direccionado numa linha entre o filmnoir e o surrealismo tão característico de David Lynch. Se por um lado temos um mundo de aparente normalidade, temos por outro um universo obscuro e pesado. Com a relação entre Jeffrey Beaumont(KyleMacLachlan) e SandyWillims (Laura Dern) é-nos fornecida a lufada de ar necessária para carregar o ambiente de mistério e suspense que se vive nas cenas que envolvem a cantora de salão DorothyVallesn e o psicopata Frank Booth. IsabellaRosselini, uma mulher desfeita, vítima de maus tratos por parte de Frank. Tem uma actuação fabulosa. Mas DennisHopper é quem mais surpreende agarrando o relançamento da carreira de Lynch. Foi assim consagado o maior vilão de sempre na história do cinema. As cenas em que usa a máscara de oxigénio são inesquecíveis. Deslumbram um carácter por demais preverso e sórdido. A música, como sempre, nos filmes de Lynch ocupa um lugar de destaque. Para além da escolha criteriosa dos temas “BlueVelvet” de BobbyVinton, e de “Dreams” de Roy Orbison, o filme conta com a colaboração de AngeloBadalamenti. Este é um filme que se destina não só aos adeptos do cinema independente, mas também aos fãs de Hitchcock. É incontornável a comparação com os temas e processos do mestre do suspense. Não só pelo voyeurismo, mas também pelo humor negro e pelo inesperado desenlace.
Considerada a melhor orquestra latina nascida nos Estados Unidos na última década, o Grupo Fantasma (EUA) apresenta-se no palco da Avenida Vasco da Gama na madrugada de 29 de Julho. Nascida no ano 2000 em Austin, Texas, junta a cumbia, a salsa, o bolero, o son montuno a estilos com o afro-funk, o jazz, a música psicadélica e o reggae. Com quatro Prémios Univisión de Musica Latina e a nomeação do seu quarto disco, “Sonidos Gold” (2008), para o Grammy de melhor disco de rock latino em 2009, o cantor e compositor José Galdeano e os seus nove companheiros chegam ao final da sua primeira década de vida com a crítica rendida à sua “versão séc. XXI do groove latino” (Boston Globe). Em Sines já se vão poder ouvir os temas de “El Existencial”, o quinto disco, que o grupo lança em Maio. Também uma estreia em Portugal.
Tal como com outros destacados exemplos do cinema de autor europeu dos anos 60, muita da discussão crítica de A Máscara, de Ingmar Bergman, classificou-o como obscuro e impossível de captar por palavras. É certo que o realizador queria que o seu filme fosse um poema visual, e preparou a famosa sequência do género de abertura para acentuar isso. A sequência funciona como um resumo introdutório do perfil artístico de Bergman, como se ele quisesse armazenar e começar tudo de novo. De facto, todo o filme pode ser visto como uma etapa para um beco sem saída existencial . A intriga de A Máscara é construída como um jogo de poder. Inicialmente a mais forte das duas mulheres parece ser a enfermeira psiquiátrica Alma (Bibi Andersson), especialmente porque parece segura de si e só ela fala tomando o controlo das coisas. Mas face à sua enigmática doente, a famosa actriz Elizabet Vogler (Liv Ulman) a atitude estável de Alma começa a derrocar. As suas conversas terapêuticas transformam-se em confissões dos seus desejos e segredos. Gradualmente ela é despida da sua própria persona, máscara de mentiras e dá um significado à sua existência. O clímax de A Máscara chega numa famosa cena onde as duas mulheres se sentam uma em frente uma à outra, ambas com idênticas roupas negras. Alma começa a falar da rejeição de Elizabet à maternidade e ao casamento, e depressa se vê a falar das suas próprias duvidas sobre a vida de família que ela desejava. Ao constatar isso, tenta retomar o controlo, mas só consegue produzir frases incoerentes. É nesta altura que Bergman usa o efeito óptico de fazer a fusão dos rostos das duas mulheres numa imagem perturbada. O filme termina logicamente com Alma a fazer a única coisa que pode para recontruir a sua vida: regressa ao mundo comum e rejeita Elizabet como a outra. Na cena final voltamos ao hospital. Alma agora com o seu antigo uniforme e persona obrigando a Elizabet a repetir a palavra nada. De volta ao rapazinho na morgue (o filho indesejado de Elizabet? O feto abortado de Alma?). E então o projector pára. Escuridão.
Carole é uma estrela de cinema. Vive sozinha porque o seu marido a abandonou e foi para Hollywood. Um fotógrafo vai a casa dela fazer uma reportagem para um jornal. Tornam-se amantes. Em A Fronfeira do Amanhecer Garrel aborda a aura, mostra-nos pessoas diferentes de uma certa realidade. Pessoas que dormem e sonham e não vivem o presente. Philippe Garrel usa frequentemente os grandes planos, rostos, o amor concentrado, as peripécias do sentimento, o ciúme, as cartas, as camas, o castigo do amor e até o choro. Uma referência especial à forma como Garrel trabalha a luz nos rostos das personagens e a forma como a voz surge em certas imagens.
A abordagem do amor, os problemas da passagem de um outro amor que chama em forma de fantasma, ou na fronteira da sombra e que é seguida de uma forma brilhante. Uma nota para a excelência de fotografia de William Lubtschansky, que participou em filmes de Jean-Luc Godard e Jaques Rivette entre outros.
O compositor italiano Ennio Morricone e a cantora islandesa Björk receberam em Estocolmo o prémio Polar, considerado o Nobel da música. A decisão destacou a "marca indelével" que Björk fez ao pop e a cultura moderna com a sua música e letras "profundamente pessoais", assim como "nenhum outro músico se movimenta tão livremente entre a vanguarda e o pop". Nascido em Roma em 1928, Morricone conquistou sucesso a partir de suas colaborações nos filmes como “Por um punhado de dólares” (1964), “Aconteceu no Oeste” (1968) e “Era uma vez na América” (1984), todos de Sergio Leone, ou “Cinema Paraíso” (1988), de Giuseppe Tornatore. Ennio Morricone “construiu uma novo género musical que marcou a composição para cinema ao longo de meio século”. Compôs a música de mais de 450 filmes, trabalhando com directores como Gillo Pontecorvo, Pier Paolo Pasolini, Bernardo Bertolucci, Giuseppe Tornatore, Brian De Palma, Roman Polanski, Warren Beatty, Oliver Stone e Pedro Almodóvar. Björk (Reykjavík, 1966) ganhou reconhecimento internacional no final dos anos 80, com sua banda The Sugarcubes, que abriu as portas para sua bem-sucedida carreira solo em 1993. Ennio Morricone e Bjork receberão o prémio, no valor um milhão de coroas (cerca de 100 mil euros) cada, numa gala agendada para 30 de Agosto em Estocolmo. O prémio Polar foi criado em 1989 por Stig Andersson, editor, compositor e representante dos ABBA. Desde que em 1992, quando começou a ser entregue, o Polar já premiou intérpretes como B.B. King, Keith Jarrett, Bob Dylan, Ray Charles, Pierre Boulez, Elton John, Bruce Springsteen, Stevie Wonder, Pink Floyd, Dizzy Gillespie e até Gilberto Gil.
“O medo corrói a alma” é um filme que se torna poderoso pelas questões que aborda, tão caras à Alemanha. Fassbinder percebeu a necessidade de trabalhar este assunto, pelo facto do seu companheiro El Hedi, o próprio actor principal do filme, estar a passar por uma experiência xenófoba. A ideia de que a Alemanha Ocidental tinha preconceitos de raça, religião e etnia prevalece até hoje. Nos finais dos anos 70 a xenofobia era facilmente percebida por imigrantes oriundos de países subdesenvolvidos. Foi precisamente isso que Fassbinder sabiamente captou. A ideia inicial era ser ele próprio a contracenar com o seu companheiro. Mas tal não seria tão bem vindo. Optou por abordar a questão com um imigrante e uma mulher alemã. Uma mulher de sessenta e tal anos e um marroquino, vinte anos mais novo. Ambos pertenciam a grupos minoritários e desprezados pela sociedade: a idosa e o imigrante. Duas pessoas deslocadas no mundo em busca de uma razão.
A Estrada é o terceiro filme de Fellini e conta com os desempenhos de Antthony Quinn no papel de Zampano, o Homem de Ferro, e de Giulietta Masina, a esposa do cineasta, que dá vida a Gelsomina, uma rapariga desamparada. A história passa-se num circo. O amor e o ciúme é o tema da história. Um universo recorrente nas películas de Fellini. Zampano precisa de uma assistente que o acompanhe nas suas digressões, pelo que compra Gelsomina à sua mãe.Esta trabalha como palhaço e a sua interpretação traz-nos à memória Charlie Chaplin.Quando ambos se juntam a um circo itinerante, Gelsomina apaixona-se por um acrobata, a quem chamam o Louco.Apesar de Zampano tratar a sua assistente com rudeza, sucumbe ao ciúme e os seus actos conduzem a obra à sua impressionante conclusão. Contada ao jeito de fábula, A Estrada afasta-se do neo-realismo do pós-guerra que marcou o cinema italiano e no qual Fellini participou enquanto argumentista. A prestação comovente de Masina como a matratada, mas corajosa Gelsomina acabaria por influenciar as sua subsequentes participações nas obras de Fellini e também em todo o seu trabalho como actriz. Ao longo da sua obra, Fellini mostrou-se sempre fascinado pela tensão existente entre a fachada teatral das personagens e a sua vida interior. A Estrada ganhou o óscar para o melhor filme em língua estrangeira e é talvez a película mais amada do cineasta italiano.
Robert Bresson utiliza o filme para exprimir o lado espiritual da vida de uma maneira única. Utilizou muitas vezes actores não profissionais, a quem ele chamava de modelos, e dirigia evitando qualquer teatralidade. Cada pormenor do mundo físico é focado pela câmara intencionalmente.Também usa a música com austeridade, para que ela seja ouvida só nos momentos chave da história. Os seus filmes são reduzidos aos elementos essenciais, à simplicidade. A fotografia é belíssima e bastante nítida, trabalhando minimamente com variações de luz nos interiores. O filme conta-nos a história de Michel (Martin LaSalle), um jovem intelectual desiludido que adquire a obsessão de roubar carteiras. O Carteirista é totalmente absorvente e as questões morais de Michel e o seu desenraizamento são profundamente perturbadores.
A cantora russa Regina Spektor, é a mais recente confirmação no cartaz do Cool Jazz Fest – festival que decorre em Julho, em vários locais de Cascais e Mafra. Em estreia absoluta em palcos nacionais, Regina actua a 1 de Julho no Parque da Palmela, onde irá apresentar o seu mais recente trabalho discográfico, “Far”, editado em 2009. Integram, igualmente, o cartaz do festival Chris Isaak, Norah Jones, António Pinho Vargas, Laurent Filipe, Groove4Tet, Deolinda, Orquestra Buena Vista Social Club feat. Omara Portuondo, Corinne Bailey Rae, Diana Krall, Club Des Belugas Orchestra, Elvis Costello & The Sugarcanes e Solomon Burke Special Guest Joss Stone. Do cartaz do evento, que aborda as linguagens e atmosferas do jazz, apostado na fusão de sonoridades e estilos, farão ainda parte mais oito talentos internacionais, a serem anunciados posteriormente. Natural de Moscovo, Regina Spektor tornou-se reconhecida mundialmente como uma das mais talentosas artistas do momento, ao emergir da cena anti-folk americana. Ao tomar contacto com o trabalho de Joni Mitchel e Ani DiFranco, entre outros, Regina acreditou que podia compor as suas próprias músicas, e foi assim que escreveu A Cappella aos dezasseis anos, e as primeiras músicas com voz e piano perto dos dezoito. Gradualmente, começou a ser notada e conhecida através das suas actuações na cidade de Nova Iorque, mais concretamente no East Village´s Sidewalk Café, no Living Room, no Tonic e Knitting Factory, entre outros. Temas como You Dont Know Me em parceria com Ben Folds ou a sua versão de “Real Love” dos Beatles , não sendo temas do seu próprio reportório, foram os grandes responsáveis pelo seu reconhecimento mundial. "Far" é o último CD editado em 2009, de onde se destaca o single de apresentação, Laughing With. Embora com letras intimistas, este é um disco com um tom mais pop que os anteriores.
Em Tempos Modernos, Chaplin dá vida, ao Vagabundo que lhe tinha trazido fama e simpatias em todo o mundo. Os problemas do desemprego, pobreza, desigualdades económicas e a tirania da máquina começaram a absorver a atenção de Chaplin. O filme transforma o Vagabundo num de entre os milhões de trabalhadores fabris que povoam o globo. Visto pela primeira vez numa linha de montagem, cujo trabalho desumano e monótono o enlouquece, o Vagabundo não tarda a ser usado como cobaia para testar uma máquina que alimenta os operários, enquanto estes realizam as suas tarefas. Entretanto conhece uma aliada para a batalha contra este mundo. O Vagabundo e a sua companheira são, de acordo com Chaplin, "Os dois únicos seres vivos num universo de autómatos." O filme é hoje, como o foi nos anos 30, um comentário brilhante à sobrevivência humana nas condições económicas, industriais e sociais adversas do século XX e, talvez, do próprio século XXI.
Antony Hegarty, figura emblemática à frente do maravilhoso projecto Antony and The Johnsons, divulgou o lançamento de um novo álbum intitulado Swanlights que verá a luz do dia na Europa a 4 de Outubro e a 5 nos EUA.
Sobre o sucessor do aclamado Crying Light, do ano passado, apenas se sabe que terá uma edição especial acompanhada de um art-book de 144 páginas com a pinturas, colagens, fotografias e textos do artista. A capa, aqui apresentada, mostra uma dessas colagens. Os Antony and the Johnsons actuaram já por diversas vezes em Portugal, onde o grupo detém um estatuto de culto.
O primeiro álbum, "Anthony and The Johnsons", saiu em 1998, mas foi com "I am a Bird Now", de 2005, que o culto em torno da figura andrógina com uma voz possante ultrapassou as fronteiras do "underground".
A Quimera do Ouro exemplifica bem uma das crenças de Charlie Chaplin, segundo a qual a tragédia e a comédia andam de mãos dadas. Chaplin criou uma comédia, em que o nosso familiar Vagabundo decide decide tornar-se prospector de ouro e juntar-se assim à multidão de corajosos optimistas, que está pronta a enfrentar a fome, o frio e a solidão. A Quimera do Ouro, em todos os aspectos, foi o filme mais elaborado da carreira de Chaplin. Durante duas semanas, foram feitas filmagens na Sierra Nevada. Cerac de 600 figurantes, na sua maior parte vagabundos e sem abrigo, foram trazidos de comboio para escalaram o trilho de 700 metros, escavado através da neve da montanha. As filmagens principais ocorreram num estúdio de Hollywood, onde foi possível criar uma das mais longas cenas de suspense cómico do cinema, na qual a cabana dos mineiros é empurrada pela tempestade para a beira de um precipício, onde fica a baloiçar. O filme está cheio de cenas de comédia que se tornaram clássicas. Os horrores da fome no século XIX são bem relatados em diversas sequências. Charlot e o seu companheiro Big Jim (Mack Swain) presos pela neve, são corroídos por uma àvida vontade de comer.Charlot cozinha a sua bota como se tratasse de um gourmet. Aos olhos do seu companheiro ele transforma-se de modo intermitente numa galinha, digna de ser cozinhada. Charlot sonhava oferecer um jantar a uma bela dançarina interpretada por Georgia Hale, que substituiu Lita Grey de dezasseis anos, quando esta engravidou e casou com Chaplin. Outra cena famosa do filme é a dança dos pãezinhos. Chaplin transmite às pernas dançantes, criadas a partir de garfos e pãezinhos, uma personalidade contagiante. Charles Chaplin afirmou com frequência, que A Quimera do Ouro era o filme pelo qual queria se lembrado.
Não é de espantar que o filme tenha despertado emoções contraditórias e uma controvérsia entre os surrealistas e organizações de extrema direita, as quais realizaram manifestações, que deram origem por exemplo a estragos em salas de cinema, à proibição da exibição da película por parte da polícia, a polémicas críticas e políticas violentas. É famosa a intervenção de Henry Miller que, sobre o filme e o seu realizador, disse: “ Ou somos feitos como o resto da humanidade civilizada, ou somos orgulhosos e íntegros como Buñuel. Se formos orgulhosos e íntegros, seremos então também anarquistas e atiraremos bombas.” A Idade do Ouro legou-nos algumas das imagens mais inesquecíveis do cinema: os bispos mumificados; a vaca em cima de uma cama, numa mansão elegante da alta burguesia;Lya Lys a chupar o dedo do pé de uma estátua. Buñuel põe em causa todo o poder exercido pela religião, pela família, pela política e pela sociedade em geral.Cria imagens surrealistas que visam libertar o homem das amarras impostas pelo moralismo da sociedade e suas instituições. Este foi o segundo filme de Buñuel, o primeiro sonoro. Dois anos antes, com Um Cão Andaluz, Buñuel fizera uma curta experimental fruto de dois sonhos que ele e Dali tiveram e que se viria a tornar num filme-manifesto do surrealismo. A Idade do Ouro é uma película que existe fora do tempo e cujo poder de perturbar e chocar não se desgasta com o passar dos séculos.
Foram vários os clássicos dirigidos aos longo dos seus 80 anos, que apesar de ser indicado cinco vezes ao óscar de melhor director, nunca levou a estatueta. Deixou-nos um legado de mais de 50 filmes, entre os quais vários clássicos como "Psicose", "Festim Diabólico" e "O Homem que Sabia Demaisiado". Vários especialistas apontam os anos 50 e 60 como o período mais estimulante do cineasta, que, em 1956, atraído por Hollywood, se tornou cidadão americano. "Vertigo", "Psycho" e "Os Pássaros" são alguns dos filmes desta era. Na altura da sua morte, Hitchcock estava a planear um novo filme.
Hitchcock foi um profundo artista e, ao mesmo tempo, um humorista popular. Os seus numerosos filmes clássicos envolvem o espectador através da elaboração de ideias, conceitos e questões humananistas, tratadas por meio de uma cativante linguagem cinematográfica, de imagens e sons.
Hitchcock é reconhecido como um autor cinematográfico, cujos filmes incorporam uma visão muito pessoal do mundo.
Entre os elementos notáveis da visão pessoal de Hitchcock podemos destacar a visão da espécie humana com a propensão para provocar o caos e a destruição; uma perpectiva existencialista através do risco da escolha pessoal; uma notável antecipação sobre os papéis sociais das mulheres.
Hitchcock conseguiu com sua câmara alcançar gerações e tornar eterno o melhor do cinema. Hitchcock foi um dos grandes. E ponto final.
A história trata de um homem que surge do nada, algures no deserto, e regressa à civilização. O filme percorre de carro toda a fronteira mexicana –americana- mais de 2500 quilómetros. A região onde acabam por filmar fica a sudoeste do Texas e chama-se Big Bend. Big Bend é uma zona protegida de lindíssimas montanhas. É uma paisagem abandonada. Não há viva alma. É um deserto. Aqui começa o filme com o nosso herói, Travis. Após ter sucumbido ao cansaço e à ausência de memória é recolhido pelo irmão. O primeiro lugar para onde viajam juntos é uma terreola minúscula com meia dúzia de casas. Há lá um hotel, onde Walt deixa o irmão para lhe ir comprar roupas novas. Quando Walt regressa, Travis já se escapuliu novamente... Paris, Texas é um road-movie, que contrapõe as paisagens remotas do deserto de Mojave, a uma viagem particular ao nosso próprio interior, em busca de um passado perdido. É um grande filme, pela excelente realização, pela belíssima fotografia, pela música áspera de Ry Cooder, pelas interpretações soberbas de Harry Dean Stanton e de Nastassja Kinski.
A portuguesa Jacinta, com um espectáculo baseado no seu último disco "Songs of Freedom", abre o Festival Internacional de Jazz de Gaia, no dia 29 de Abril.
A segunda noite tem como protagonista Hermeto Pascoal, compositor brasileiro e multi-instrumentista (acordeão, flauta, piano, saxofone, trompete, eufónio, guitarra, etc.), que promete mais um concerto inesquecível em formato duo com a cantora (e sua mulher) Aline Moreira. Antes, no mesmo dia, sobe ao palco o GS Quartet, liderado pelo trompetista brasileiro Gileno Santana, que encontra na música popular brasileira o seu repertório de eleição, passando por autores como Caetano Veloso, João Donato ou Pixinguinha e apresentando também alguns temas originais.
Na última noite, o festival vibra com a voz de Maria João, desta vez, a artista apresenta-se com o projecto Ogre, nascido da criatividade de cinco músicos que juntaram competências distintas e universos sonoros não coincidentes, construindo um todo coerente e... indefinível.
O encerramento do Jazz'n Gaia deste ano far-se-á com um "dinossauro" do Jazz: o mítico tocador de harmónica Toots Thielemans, nome incontornável do jazz mundial que tocou já com outros não menos importantes, como Charlie Parker, Benny Goodman, George Shearing, Ella Fitzgerald, Quincy Jones, Bill Evans, Jaco Pastorius, Natalie Cole, Pat Metheny, Paul Simon, Billy Joel. Entre outras, são conhecidas as suas interpretações e composições para filmes, sendo a mais famosa a inesquecível balada de "Midnight Cowboy", um ícone da cultura pop dos anos 60.
Wim Wenders realizou em 1987 um dos filmes mais poéticos da década de 80. Não derrubou o muro que separou as duas Alemanhas, mas procurou uma linguagem comum ao mundo celestial e terrestre. Temos Berlim no final da década, de uma humanidade desiludida que vagueia cinzenta pelas cicatrizes do Pósguerra. Esta situação é-nos relatada do ponto de vista de dois anjos Cassiel e Damien visíveis apenas por crianças e incapazes de qualquer contacto físico com o mundo humano. A sua visão é, significativamente, a preto e branco. Embora os anjos observem e escutem, muito escapa, contudo, à sua compreensão. Eles não sabem, por exemplo, o que são as cores. Não as que conseguem sequer imaginar. Ou cheiros e sabores! E aquilo que as pessoas designam por sentimentos, os anjos pressentem-nos, mas não os podem experimentar. São profundamente afectuosos e bons, também não podem ser diferentes e, por isso, também não imaginam o contrário: o medo, por exemplo, ou o ciúme, ou a inveja, ou mesmo o ódio. Conhecem decerto, as formas de expressão, mas não os próprios sentimentos. Tudo isto escapa aos anjos. Apenas percepcionam de modo talvez mais completo do que as pessoas. O mundo material e sensual está reservado às pessoas. É o privilégio da condição mortal. Um dia um dos anjos teve uma ideia monstruosa: renunciar à existência de anjo em favor de uma vida humana! O anjo que teve essa ideia terrível tinha sentido o desejo de se apaixonar por uma pessoa, por uma mulher, e a ideia de poder tocá-la esteve na origem de um resultado imprevisível. Na segunda metade da história passam-se coisas inusitadas. De repente , há obstáculos: distâncias, regras e limites, entre eles um grande, o muro, que anteriormente nunca constituíra uma separação. Trata-se de aprender a viver. A viver com o medo, um sentimento que até agora era desconhecido. Na eternidade não há medo, na presença da morte, aí está ele. Mas , sobretudo, o que os anjos apreciavam e consideravam especialmente era uma capacidade que os homens tinham: o humor “ Quando apesar de tudo se ri”.
O amor é um lugar estranho. Consegue mexer-se de formas muito misteriosas. Quatro noites com Ana é a mais excêntrica e original expressão de amor na sétima arte. Jerzy Skolimowski conta-nos uma insólita história de amor. De forma brilhante lança-nos numa perspectiva e baralha-nos com outra. A obsessão hipnotiza o espectador num filme que merece cinco estrelas por cada noite.
Um dos mais eclécticos agrupamentos da cena pop/rock, os Talking Heads marcaram o seu próprio espaço criativo através de arriscadas e arrojadas experimentações feitas em torno de diferentes sons modernos. Misturavam o punk, rock, pop, funk e no final da carreira, o world music. O líder, guitarrista e vocalista David Byrne além do trabalho com o grupo, compôs para vários artistas. O seu envolvimento com a arte e o design também já é antigo. Os Talking Heads contaram com a colaboração de Brian Eno, que trabalhou em parceria com Roxy Music, David Bowie e Robert Fripp Publicaram-se muitos elogios a esta banda, todos eles merecidos. Foram uma das bandas mais influentes durante o período que existiu, entre 1976 e 1991. Expandiram os limites do que se julgava ser possível, elevando a fasquia da qualidade das letras e composições. David Byrne seguiu uma carreira a solo fracassada, mas o grupo até hoje é uma referencia de rock experimental, pop e criativo influenciando bandas actuais como Arcade Fire, The Killers, Clap Your Hands Say Yeah e, mais recentemente, artistas inspirados pelo worldbeat, como Vampire Weekend e Yeasayer.
The Legendary Tiger Man é o alterego de Paulo Furtado, multifacetado artista de Coimbra. Inspirado no velho formato de one-man-band Com uma estética muito particular – ao formato analógico tradicional (bombo, prato de choque, guitarra) juntam-se, sem pudor, soluções electrónicas. O resultado conhecido é explosivo. Ao vivo, as prestações não permitem indiferença na assistência. O Homem Tigre provou que é realmente lendário, ao conseguir encher, sozinho a Casa das Artes em Vila Nova de Famalicão. Um artista que enche, de facto, o espaço e o tempo. Um músico, um criador, um artesão como muito, muito poucos… um génio da música que em tudo consegue surpreender.
Cronenber chega a Crash a partir do livro de Ballard, que encena corpos e máquinas como criaturas e produtos tecnológicos . Crash inscreve-se num mundo hipnótico à procura de uma nova existência. Cronenberg inventa a existência humana. Os carros e os acidentes de viação são em Crash um meio usado para reduzir nos humanos um certo sonambolismo. O transe de Crash é vanguardista, interior e declarado na definição obsessiva das personagens e na visualização dos seus movimentos, sobretudo interiores.
A tribute montage of the films directed by Quentin Tarantino: - Inglourious Basterds (2009) - Death Proof (2007) - Kill Bill: Vol. 2 (2004) - Kill Bill: Vol. 1 (2003) - Jackie Brown (1997) - Four Rooms (1995) (segment "The Man from Hollywood") - Pulp Fiction (1994) - Reservoir Dogs (1992)
São um quarteto feminino californiano, com seis anos de existência. Buscam inspiração em bandas como Joy Division, My Bloody Valentine, Cure ou The Smiths. No final do ano de 2009, para o seu EP "Exquisite Corpse", contaram com a participação de John Frusciante, antigo guitarrista dos Red Hot Chili Peppers. Os Warpaint são Emily Kokal (voz, guitarras), Theresa Wayman (voz, guitarras), e Jenny Lee Lindberg (baixo, voz)e a baterista Stella Mozgawa.
Laurie Anderson volta aos estúdios e prepara-se para lançar "Homeland". O novo álbum, tem data prevista a 15 de Junho.Para acomompanhar neste regresso, contará com a colaboraçãode gente como Antony Hegarty, Four Tet, John Zorn e Lou Reed.
Recordo "O Superman (For Massenet)" uma canção de 1981 de Laurie Anderson . Meio cantado, meio falado, quase minimalista, subiu para # 2 no UK Singles Charts , em 1981 .Antes do sucesso dessa canção, Anderson era pouco conhecida fora do mundo da arte.
Coppola, longe dos grandes estúdios, decidiu fazer a sua própria produção, ganhar a sua própria independência. Este é o seu segundo filme a preto e branco, o primeiro foi o magnífico Rumble Fish em 1983. "Tetro" é um melodrama sobre uma família, bem arquitectado, um pouco previsível, mas intenso. Entrelaçando uma história de vidas com dança, teatro, música e escrita. A base da história são as tensões freudianas, as emoções reprimidas, a prepotência na família. É um filme com uma fotografia notável, profundamente teatral. Tal como Michael Corleone em Godfather, aqui vemos uma personagem masculina que perdurará, o escritor Tetro, pelo carismático Vincent Gallo.
Os Mão Morta puseram Braga no mapa musical nacional e fizeram dela algo mais do que uma cidade de arcebispos. Os 25 anos de carreira da banda são também 25 anos atentos à transformação de uma cidade, e a expor os podres da sociedade. Adolfo Luxúria Canibal fala da cidade que viu os Mão Morta nascer.
O que mudou em Braga nestes 25 anos de Mão Morta? Houve muita coisa que mudou, pelo menos na aparência. Em 25 anos, os Mão Morta cresceram, Braga ficou no mesmo sítio. Braga cresceu muito em termos de população e construção. Tem um problema terrível que é o desordenamento urbanístico, que começa no centro. E depois uma pessoa sobe ao Bom Jesus, olha para a cidade e ela parece um grande vomitado. As casas são todas sem personalidade, sem charme, tudo uma mancha creme.
O que faz falta em Braga? O que faz mais falta em Braga é mesmo a oferta cultural. É horrível, uma pessoa fazer uma vida casa-trabalho, pensar em sair à noite e não ter para onde ir. Não é por acaso que é uma cidade com pouca massa crítica. Não sei se estão aborrecidos pela religião ou pela falta de cultura...Para ser a tal terceira cidade do país que quer reivindicar precisava de outro tipo de incentivos culturais, e Braga não os tem.
E para ser a suposta Capital Europeia da Juventude... Essa, acho-lhe muita piada. Agora que Braga já não é a capital mais jovem nem de Portugal, nem da Europa e numa altura em que Guimarães tem a Capital Europeia da Cultura, que devia ser orgulho para nós bracarenses, e podendo nós auferir dessa programação inerente à capital, a Câmara inventa uma Capital Europeia da Juventude. Em vez de aproveitar sinergias e criar públicos também em Braga, cria comcorrência.Fico pasmado com o provincianismo desta gente.
O que é que há então de bom em Braga? Braga é uma cidade muito boa para morrer. Uma pessoa não fica com muitas saudades da vida, não é? Se bem que não tenha incineração, que é uma chatice...
Nem tinham onde deitar as conzas, ninguém quer ser deitado ao Rio Este... O Rio Este nem peixes tem, e as cinzas iam ali acumular-se com o lixo. É bom estar em Braga para quem for mais velho, para uma pessoa que tenha Braga como ponto de refúgio e que se meta em casa, à lareira, a ouvir a chuva lá fora... Braga é uma cidade óptima, porque tem muita chuva. E que depois tenha dinheiro para viajar e voltar a Braga para ouvir mais um bocado de chuva.Fora isso, é uma cidade que deixa muitas angústias, muita vontade de sair. Não é por acaso que as pessoas saem da cidade, vão para qualquer lado menos Braga.Para Braga as pessoas vêm dormir porque é barato.
"Uma ideia é um pensamento. É um pensamento que contém mais do que se pensa que contém quando se o recebe. Mas, naquele primeiro momento, dá-se uma faísca. Numa banda desenhada, se alguém tem um ideia, acende-se uma lâmpada. Acontece num instante, tal como na vida. Seria óptimo se o filme inteiro viesse todo de uma só vez. mas vem, para mim, em fragmentos. Aquele primeiro fragmento é como a Pedra de Roseta. É a peça do puzzle que indica o resto. É uma peça de puzzle esperançosa. Em Veludo azul, foi lábios vermelhos, relvados verdes e a canção - a versão de Blue Velvet, de Bobby Vinton. A coisa seguinte foi uma orelha caída num campo. E foi tudo. Uma pessoa apaixona-se pela primeira ideia, por aquele pedacinho minúsculo. E, depois de a ter, o resto há-de vir com o tempo."
David Lynch, in "Em Busca do Grande Peixe" (Estrela Polar, 2008)
É agradável descobrir um livro que nos apega, que queremos ler sempre mais um bocadinho, que não queremos parar de ler. É o que me está a acontecer com “O destino turístico” de Rui Zink. Este conto sobre Greg, ou Guereg, como queiram, que pretende morrer mas que não tem coragem para se suicidar, vive de uma ideia criativa que inicialmente nos reporta para paragens longíquas, levados por uma realidade estranha do espaço da acção que se assemelha mais a paragens no médio oriente, mas que aos poucos nos faz suspeitar que esta "zona" onde decorre a narrativa afinal não é assim tão longe.
"Greg atravessou o pátio e teve o segundo não-déjá vu do dia. Por uma razão qualquer, quase tinha a certeza de que ia encontrar a jornalista e o câmara à beira da piscina. (...) E lá não-estava ela, exactamente na mesma posição em que no dia anterior. (...)Um não-déjá vu era, de certo modo, simultaneamente o oposto e o dobro de um déjá vu. Este, o produto original, consistia na sensação estranha de voltar a ver uma cena tal & qual nos recordávamos de a ter vivido. Tendo isto em conta, a não-repetição da cena era, simplesmente, a não-repetição da cena. Um não-acontecimento. E um não-acontecimento era, por definição... enfim, um não acontecimento. Algo que não acontecera. Fumo. Fumo de nada. Nada. Só que, por outro lado, o facto de uma pessoa esperar um déjá vu não faria, desde logo, com que isso fosse (até certo ponto) um déjá vu?"
Andrei Tarkovsky nasceu a 4 de Abril de 1932, festejaria hoje o seu 78º aniversário se fosse vivo. Ingmar Bergman considera-o o maior cineasta de todos os tempos, por ter inventado uma nova linguagem, captando a vida como uma reflexão. Mais do que um cineasta é um filosofo da imagem. É considerado um realizador perfeccionista na forma de filmar. Toda a sua obra é marcada por um forte sentido espiritual da vida. Escreveu um único livro "Esculpir o tempo" onde aborda questões sobre os seus filmes, a importância que o cinema teve na sua vida, a poesia nos seus filmes, a metafísica, a fé, a relação entre a estética e a exploração dos conflitos que abalam o nosso universo interior. O realizador de "Stalker" morreria em 1986, logo após ter terminado o filme "O Sacrifício". É um dos meus realizadores favoritos. Parabéns Tarkovsky!
Tom Waits, Chocolate Jesus - "Mule Variations" (1999)
PJ Harvey, Send His Love To Me - "To Bring You My Love" (1995)
U2, Wake Up Dead Man - "Pop" (1997)
Depeche Mode, Personal Jesus - (1989)
Martin Scorsese consegue definitivamente com mestria prender os olhos dos apaixonados pelo cinema com o seu mais recente lançamento que se trata de uma adaptação do "best seller" de Dennis Lehane (2003), autor de "Mystic River". Leonardo Di Caprio, depois de ter ganho mais uns quilos, cada vez nos surpreende mais com as suas actuações. É incrível a capacidade que ele tem para imprimir força e realidade à personagem em questão. Durante semanas li críticas e sonhei em ver o filme. Receei ficar decepcionada, é um filme polémico, ora ditam genialidade ora fracasso.
Tudo ocorre em 1954, quando Teddy(Leonardo Di Caprio), um oficial da polícia, e seu companheiro Chuck (Mark Ruffalo) são chamados para investigar um suposto desaparecimento de uma paciente na ilha para onde são levados.O que mais intriga Teddy é como a paciente poderia ter escapado.É nessa busca incansável que acaba descobrindo a verdadeira razão de ter sido chamado para ilha. A dramaticidade e a escuridão das cenas dão um toque de terror e suspense que faz o espectador ficar imóvel na cadeira, sem piscar, à espera da cena seguinte. Shutter Island é absorvente e perturbante com todo o clima de loucura contagiante em que o protagonista é apanhado, onde nada é certo.
Tal como em Taxi Driver (1976) a personagem é intrigante e misteriosa. Enquanto Travis Bickle (Robert De Niro) representa o papel de um ex-veterano de guerra lutando contra a sua própria mente. Teddy, em Shutter Island, passa muito tempo à procura de uma resposta que todos já sabem, mas que ele se recusa a ver.
A inversão da lógica quotidiana costuma resultar em argumentos que agarram o leitor desde o primeiro momento:
"Era uma vez um cão chamado Gastão, Que morava com cinco
Animais de estimação"
Começa assim, o novo livro escrito por Rita Taborda e ilustrado por Luís Henriques, antevendo-se o potencial cómico, o humor e nonsense decorrente do facto de um cão trocar de perspectiva com os humanos.
Gastão não se contentava em ser cão, ele queria que cada elemento da família "fosse obediente. E com siso e juízo se mantivesse na linha. Seria isso ser muito exigente?"
Talvez não. O curioso é que, se as ilustrações a preto e branco o mostram como um animal saudável nos hábitos de roer, rosnar e alçar a perna, o texto traduz o seu"pensamento"alinhando uma segunda interpretação paralela às imagens. O efeito é paradoxal.
Madrugada é uma das bandas que mais admiro. Têm fortes influências de Suicide, Velvet Underground, Nick Cave, Leonard Cohen ou Joy Division. Formaram-se em Stokmarknes, Noruega no ano de 1995. A banda foi formada por Sivert Höyem (vocalista), Robert Buräs (guitarrista), Frode Jacobsen (baixista) e Simen Vangen (baterista), que assumiu mais tarde o cargo, depois de Jon Lauvland Pettersen ter deixado a banda em 2002.
1. "Tell Me Why"
2. "After the Gold Rush"
3. "Only Love Can Break Your Heart"
4. "Southern Man"
5. "Till the Morning Comes"
6. "Oh Lonesome Me"
7. "Don't Let It Bring You Down"
8. "Birds"
9. "When You Dance I Can Really Love"
10. "I Believe in You"
11. "Cripple Creek Ferry"