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23/04/11

"48" Contra o esquecimento


Susana de Sousa Dias em “48” filma o que ficou na memória de pessoas que viveram na pele as consequências da ditadura fascista do Estado Novo. Chama-se 48 pelos anos que durou a ditadura. Conta as experiências pessoais de 16 testemunhos de presos torturados pela polícia política do Estado Novo, a PIDE.
Um documentário obrigatório, contra o esquecimento e pela lembrança das liberdades conquistadas em Abril de 74.
Estreou esta semana nas salas de cinema. Um filme a visionar, logo que tenha oportunidade.

Road to Knowhere (2011)

Monte Hellman realizador de culto norte-americano dos anos 60 e 70 regressou com a sua primeira incursão pelo digital, num trabalho absolutamente notável.
Em Road to Knowhere entramos num filme dentro de um filme, em que se segue um exercício de montagem admirável de três acontecimento diferentes: o filme de Hellman, o documentário sobre a rodagem do filme, em que o realizador (alter ego de Monte) se envolve com a protagonista ao ponto de perder o controlo da sua ficção e ser apanhado por ela, e a história em que se se baseia a obra, a misteriosa morte de uma jovem universitária e um magnata de meia idade.
Road to Knowhere remete-nos para o universo Lynchiano, onde as personagens se encontram num enredo sem ponto de referência ou fuga possível.Sobre outro ponto de vista, há a abordagem aos fantasmas e obsessões que povoam as personagens lembrando Bergman, inclusivamente com referências explicitas ao filme, “ O Sétimo Selo”.
Passados vinte anos desde a sua última longa-metragem, Monte Hellman apresenta Road to Knowhere no Festival de Veneza, onde o Leão de Ouro acaba por ser entregue a Somewhere de Sofia Coppola. Monte recebe o prémio de carreira.

21/04/11

L´Enfer (1994)


L´Enfer conta o drama de Paul (François Cluzet), proprietário de um hotel, que enlouquece de ciúmes pela aparente infidelidade da sua bela e sensual esposa, Nelly (Emmanuelle Béart). Paul entra num estado de paranóia e obsessão, imaginando cenas consecutivas de traição, com os homens que se aproximam dela. Sucedem-se cenas constantes de perseguição, vivendo assolado por dúvidas e pela realidade ilusória que mentalmente vai construindo. A vida de sonho, com família e negócios a prosperar vai-se degradando, até que o ciúme de Paul declina em violência fazendo de Nelly sua refém.
Claude Chabrol realizou a película pegando no argumento de L´Enfer de Henri-Georges Clouzot , que contava com Romy Shneider no papel de Nelly. Um filme de 1964 interrompido por peripécias em que a ficção se misturou em parte com a realidade, já que Clouzot, ao longo das filmagens, desenvolveu uma obsessão pela protagonista, Romy Schneider. O filme ficou inacabado devido à morte súbita do realizador.
Chabrol realizou este filme em 1994, após ter comprado os direitos de autor à esposa de Clouzot.
L'Enfer é um thriller psicológico repleto de mistério e tensão a lembrar Hitchcock, referência marcante para Chabrol. A atmosfera de suspense que cresce ao longo do filme aguça a vontade saber sempre o que vem a seguir. A não perder.

17/02/11

Black Swan (2010)


“O Lago dos Cisnes” conta-nos a história de uma rapariga presa no corpo de um cisne branco de onde só o amor a pode libertar. Até que, a certa altura, o Cisne Preto afasta o cisne Branco do Príncipe, suicida-se e encontra finalmente a sua libertação. Em suma, este é o mote dado para todo o enredo do "Black Swan".
Aronofsky, deixa-nos rendidos perante este filme completamente arrebatador, sobre mais uma viagem pela mente humana e seus conflitos interiores. É um realizador absolutamente admirável na arte de contar histórias, filmar. A narrativa é forte e intensa, não deixa ninguém indiferente.
"Black Swan" expõe de uma forma sublime como um distúrbio de comportamento pode condicionar o equilíbrio emocional e toda a vida em sociedade.
Nina (a exímia Natalie Portman) vê-se sempre de fora e não como realmente se sente. A conversa no bar, com o rapaz que acabou de conhecer, é bem representativa disso. Quando ele lhe pergunta quem ela é, e ela responde: bailarina, e só a seguir menciona o seu nome. Nina só conseguiu chegar à verdade, quando passou a ver a vida pelos próprios olhos, desligando-se da maneira como, a seu ver, os outros olhavam para ela, abstraindo-se do que pensavam dela.
Nina entra em conflito consigo mesma, quando por um lado busca atingir a pureza e a perfeição absoluta, que é imposta pela mãe, Érica (Barbara Hershey) também em tempos bailarina, que abdicou de o ser para a ter, e que projecta na filha tudo aquilo que não conseguiu ser, tratando-a de uma forma obsessiva como se fosse uma criança, por outro há a ambição de se transpor para o lado mais obscuro e subversivo da vida, indicado pelo professor. A dualidade permanece em constante conflito no argumento do filme, o cisne preto e o cisne branco, a mãe e o professor, o bom e o mau, a luz e a escuridão.
Nina pretendia substituir a conceituada e principal bailarina Beth Macintyre (Wynonda Rider) que tinha sido afastada devido à idade.
O papel de cisne branco seria sempre seu. Nina, consegue-o realizar na perfeição, mas falta-lhe rasgo, ousadia, soltar as garras para conseguir encarnar a personagem de cisne preto no estrondoso bailado de Tchaikovsky. O facto é que Nina só consegue desabrochar realmente quando, impelida pelo professor, Thomas Leroy (Vincent Cassel), descobre a sua própria sexualidade, consegue desabrochar, transformar-se e sentir-se uma verdadeira artista.
É significativo e simbólico, como um instante de corte e transição, o momento em que ela retira do seu quarto todos os bonecos, que se espalhavam pelo seu quarto.
Nina vive dividida entre duas personalidades, tal como se passava no "Fight Club" de David Fincher, mas num corpo só há lugar para uma. Ela acaba por eliminar tudo aquilo que a reprime, só assim o cisne negro pode voar.
A cena em que Nina se transforma em cisne negro, a lembrar "Fly" de Cronenberg, o filme está repleto de cenas a lembrar outros filmes, é uma das cenas mais belas, devidamente acompanhada com a música sublime de Clint Mansell.
No final, em perfeita apoteose chovem os aplausos para Nina/ Natalie Portman , num final trágico. Desce o pano e encerra-se ali não só o fim de um bailado mas o ciclo de uma vida.
É um filme onde por vezes é ténue a fronteira entre a realidade e a imaginação, a loucura e a lucidez. Mais uma vez Aronofsky confronta-nos com uma experiência emocional e sensorial avassaladora e inesquecível.

28/11/10

Requiem For a Dream


“Requiem For a Dream” é um filme que não deixa ninguém indiferente. É uma obra sobre a realidade nua e crua do vício, heroína, medicamentos e TV. Um filme extremamente pesado e duro, um verdadeiro murro no estômago. Confesso que nos últimos minutos tive dificuldades em ver o filme até ao fim.
É um filme sobre a conquista de um mundo ideal e dos seus sonhos a todo o custo, da escolha de atalhos e caminhos que levam lentamente à destruição física e psicológica das personagens. Uma viagem ao lado mais cruel e obscuro da natureza humana.
Por um lado Sara (Ellen Burstyn), uma solitária, já com uma certa idade, ingénua e típica dona de casa, que vê uma luz ao fundo do túnel da sua vida, com a possibilidade de aparecer na televisão. Faz tudo para emagrecer, transforma-se numa viciada em comprimidos, levando-a à loucura. Harry (Jared Leto), o filho de Sara, pretende comprar uma loja de roupas para a sua namorada , Marion (Jennifer Conelly) e tornar-se num homem respeitável. Por sua vez o casal, mais um amigo Tyrone, entram no tráfico de droga. Em comum têm um percurso de auto-destruição, onde todos os sonhos se desvanecem e nada mais resta para além do vício.
Darren Aronofsky realiza uma obra soberba a todos os níveis. De destacar a banda sonora de Clint Mansell, a fotografia de Matthew Libatique e a arrebatadora realização, com planos e ângulos com um ritmo completamente alucinante que nos transmite realmente a agonia e inquietação das personagens. Aronofsky utiliza todas as técnicas para nos afastar da realidade.
A nível de representação, todo o elenco revela sólidas prestações, contudo destaco Ellen Burstyn que tem aqui um dos melhores registos que alguma vez vi por parte de um actor.
Aronofsky leva-nos ao limite das nossas sensações, fazendo-nos vivenciar a angústia e o sofrimento através de cada personagem. Chegamos ao final do filme completamente atónitos. Um filme que apela aos sentidos, mas também à reflexão. Obrigatório.

23/10/10

Mon Oncle (1958)










Tal como a figura de Charlie Chaplin ficou para sempre na nossa memória através de símbolos peculiares como o chapéu, a bengala ou o bigode, não sendo tão conhecido, é certo, mas com um chapéu, uma gabardine e um cachimbo associamos logo a Tati, não ao realizador/actor mas à personagem. A caracterização desta típica personagem iniciou-se no filme “As Férias do Sr.Hulot” e continuou com Mon Oncle.
A associação a Chaplin não se fica só pela caracterização, mas também pela crítica política e social com um sentido de humor mordaz que Tati confere aos seus filmes. Chaplin criticou a industrialização, Tati exerce uma crítica acérrima à modernização e à sociedade do consumo.
Temos dois mundos distintos e o seu contraste. Se num lado temos o espaço organizado, moderno, na periferia da cidade, noutro vemos um amontoado de casas humildes, velhas e cheias de falta de privacidade.
Mon Oncle caracteriza através da família “Arpel” o quotidiano dos inícios do século XX. Uma família que vive numa vivenda que mais parece retirada de um catálogo, em que tudo é automático e pretensiosamente moderno, tornando-se obviamente ridículo. O funcionamento e utilidade dos objectos não estão de acordo com as necessidades do Homem, mas com uma necessidade clara de ostentação. Contudo tudo parece perfeito e cuidado ao mínimo detalhe. Já onde vive o Sr. Hulot torna-se evidente, a proximidade, o calor humano entre as pessoas que se cruzam na rua ou na feira todos os dias.
E é o filho, Gerard que exerce a ponte entre estes dois mundos. Ao sair do seu mundo imaculado, e saindo com o seu tio Sr.Hulot , a criança descobre os prazeres simples da vida na rua tornando-se igual a todas as outras.
Torna-se evidente o propósito de Tati em mostrar como as relações humanas podem ser prejudicadas pela intervenção tecnológica.
Mon Oncle é um filme que não podia ser mais actual. Uma obra sublime.

14/10/10

Delicatessen (1991)











Realizado por Marc Caro e Jean Pierre Jeunet Delicatessen é uma história que decorre no século XXI em França, num cenário pós apocalíptico de grande escassez de alimento.
O filme inicia de uma forma algo misteriosa, uma figura revestida dos pés à cabeça em lixo foge de uma charcutaria e vai num camião do lixo. Quando de repente encontra o terrível carniceiro (Jean-Claude Dreyfus) especialista em carne humana. A partir do momento em que o ex-palhaço, Louison chega a Delicatessen, a residência do carniceiro, e se apaixona pela sua filha, este vai arranjar-lhe emprego com o intuito de o fazer em picado. Julie (Marie-Laure Dougnac),que é violoncelista e vê muito mal, apaixona-se por Louison e quer salva-lo das garras do pai. Entretanto pede socorro a um bando de rebeldes que vive no underground.
O que conta neste filme, acima de tudo, é a visão imaginativa, a originalidade e o senso de humor bizarro, negro e muito subtil. Conta com uma atmosfera densa e sombria é visualmente muito bem elaborada. A história diverte pelas cenas caricatas e pelo fascínio que elas suscitam:uma sujeita obcecada pelo suicídio, que nunca consegue atingir o seu objectivo, um sujeito que se alimenta de sapos que cria, Julie que vê tão mal que passa a vida a partir objectos, ou os números de circo de Lousion.
Delicatessen é um filme pouco convencional, com um espírito irreverente, que agarra pelos pormenores únicos de cada cena. Com Delicatessem estamos no mundo do "faz-de-conta" e pelo sonho é que vamos.

10/10/10

Tuvalu (1999)

Sem querer desvendar a história, com Tuvalu fazemos uma viagem pelo sonho. Sentimos que estamos a mergulhar num mundo da fantasia e de imaginação. Lembra-nos o cinema mudo do início do século 20. O diálogo, muito escasso é apresentado numa mistura de línguas europeias. Por sinal o filme conta com actores de variadíssimas nacionalidades. No filme as imagens, os cenários, a expressão corporal, falam por si só. O aspecto visual é muito idêntico ao Delicatessen, aliás o cenógrafo é o mesmo. O filme é todo passado ou a preto e branco ou em tons sépia o que lhe confere um aura nostálgica de outros tempos. Tem uma banda sonora fantástica.
A história é simples, mas muito bem construída e contada. Denis Lavant como Anton e Chulpan Khamatova como Eva conferem à história toda a intensidade e a magia que ela nos vai transmitindo. Tuvalu tem algumas cenas fabulosas. A cena em que Eva se encontra na piscina vazia, à noite, a nadar com um aquário e um peixe é magnífica. Outra cena impressionante é a do funeral do pai de Anton na piscina, já no final do filme, como sinal de transcendência para outro cosmos.
Um filme surpreendente e apaixonante, que nos transporta para o delirante reino da fantasia.

03/10/10

Stalker (1979)

Ninguém sabe explicar o surgimento da Zona. Apesar do perigo decretado pelo governo, muitos tentam e continuam a lá ir, por acreditarem que lá encontrarão o local onde se realizam todos os seus mais recônditos desejos. Mas apenas alguns conseguem ultrapassar todas as armadilhas, os Stalkers. E vai ser um Stalker que vai guiar um escritor e um cientista por todo um caminho de provações e labirintos sinuosos. O escritor famoso é céptico e gosta de filosofar, vai para a Zona, porque lhe falta a inspiração. O cientista não menciona o seu propósito, apenas diz que quer estudar e saber mais sobre a Zona. Mas Stalker, um homem humilde e sensível é o único que sente cada obstáculo com que se depara, sente-o na pele com uma dor profunda.
É um filme inesquecível. Tudo o que possamos dizer é pouco perante a grandiosidade do filme. Trata-se de um filme introspectivo, tudo nele é inquietude, transportando-nos para vários estados de espírito. Tarkovsky é um realizador sobre a espiritualidade humana e este filme não foge à regra. Um filme cheio de sequências sobre questões existenciais, com belos e detalhados planos, movimentos da câmara lentos e precisos, captando cada momento com maior exactidão. É um filme sobre a fé e a transcendência do homem, filmado com inteligência e muita mestria.
É uma adaptação da novela Roadside Picnic, dos irmãos Strugatsky. Tarkovsky sempre disse que a sua adaptação tinha sido muito livre e em pouco se assemelhava ao livro.

26/09/10

Il portiere di notte (1974)


A tentação irresistível é analisar este filme com base nas clássicas dicotomias do dever e da moral, da dor e do prazer, do bem e do mal.
É um filme sobre as relações humanas e a sua complexidade. Um amor desenvolvido por uma prisioneira de um campo de concentração nazi e um oficial das SS hitlariana. Em 1957, treze anos após a sua libertação, têm um reencontro, por mero acaso, num hotel de Viena de Áustria, numa vivência já de paz e democrática. O ex- oficial trabalha como porteiro nocturno do hotel e faz parte de uma organização secreta nazi que pretende eliminar todos aqueles que possam ser possíveis denunciadores. Lúcia (Charlotte Rampling) é um alvo a abater, mas Dirk (Maximilian Theo Aldorfer) não só não o faz, como ainda a protege. E são, então, confrontados com toda uma relação exposta à degradação física e mental. É muito mais do que um filme sobre relações sadomasoquistas. Mais do que a luta entre o bem e o mal, num plano mais geral, há uma dimensão humana que se sobrepõe às questões de justiça. Seria legítimo que Lúcia renunciasse ao seu amor quando Dirk dava indícios de arrependimento e de querer regressar a uma vida normal, longe da guerra e das perseguições. Poder-se-á perguntar o que é mais importante a capacidade de perdoar e de tolerância ou a atitude de vingança. E também questionar o direito à liberdade de opção deste casal pela felicidade, por uma vida própria. No fundo tudo se resume a saber se a liberdade existe após a derrota do nazismo.
Como nota suplementar, será de assinalar que a música que Lucia canta, num grande momento do filme, no qual imita a Lola de Marlene Dietrich, em "O Anjo Azul", de 1930, inspirou, mais tarde, também um videoclipe da Madonna.

19/09/10

La Haine (1995)


A história decorre após uma enorme revolta e confrontos violentos em Paris entre jovens e a polícia. Tanto que o filme é dedicado a todos os que morreram durante a sua realização. Um filme onde ficção e realidade andam de mãos dadas. Faz-nos lembrar, de algum modo, filmes fabulosos como “Cidade de Deus” ou “American History X” mas num contexto europeu. Foi um filme polémico em França, por evidenciar e retratar de forma nua e crua a realidade das zonas mais pobres e degradadas dos bairros sociais da periferia, povoados em larga dimensão por africanos e seus descendentes, onde o desemprego a pobreza e o crime é uma constante.
Três jovens deambulam por Paris após os derradeiros acontecimentos e distúrbios, um judeu, Vinz (Vincent Cassel) um árabe, Said (Saïd Taghmaoui) e um negro Hubert (Hubert Koundé), três personalidades muito diferentes, unidos pela amizade e decadência em que sobrevivem num ambiente de rude violência. Onde tal como Hubert , supostamente, o mais controlado , diz ”O ódio gera ódio”, e essa ideia fica bem patente em todo o filme. Vincent , quer a todo o custo vingar-se por um amigo, Abdel (Abdel Ahmed Ghili) que foi brutalmente espancado por um polícia e se encontra à beira da morte. Declara-se a corrupção dentro da própria polícia e os valores que as norteiam, no que respeita a drogas e torturas. As 24 horas em que o filme acontece vão-se intensificando numa série de conflitos terminando num desenlace algo inesperado. O final faz-nos reportar para uma citação que nos aparece no início do filme “O importante não é a queda, mas como se aterra.” Acaba por ser um filme político, onde o que importa não é apontar soluções, mas sim reflectir sobre esta complexa realidade, como o racismo e a imigração.
A película, toda ela a preto e branco confere maior intensidade dramática a todas cenas. É um filme de muitas emoções, medo, raiva, alegria, tristeza mas o ódio, que dá titulo ao filme prevalece de princípio ao fim.
Vincent Cassel, incorporando uma personagem consumida pelo ódio e capaz das maiores atrocidades, merece uma referência especial pela sua interpretação, trazendo-nos por momentos, à memória Robert de Niro em Taxi Driver.
A referir, venceu o prémio de “Melhor Realizador” em Cannes e também de ”Melhor Filme” nos Césares.
Em jeito de curiosidade, Mathieu Kassovitz, que também é actor, foi o protagonista de "Amélie Poulain".

03/09/10

The Dreamers 2003



The Dreamers, filme realizado por Bernardo Bertolucci, mais conhecido pela polémica película “Último Tango em Paris”, mas também pelo "O último Imperador” ou “Beleza Roubada” voltou a chocar susceptibilidades, após a sua apresentação em 2003. Essas reacções deveram-se não só à nudez explícita e descomplexada de algumas cenas do filme como pelo seu eventual carácter algo transgressor.
A película aborda a ida de um jovem, Mathew (Mathew Pitt) que vai vai estudar para Paris. Lá cruza-se com os irmãos gémeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green) e acaba por os conhecer e ir viver com eles, enquanto os pais deles estão para fora. Mathew é um amante de cinema. A paixão pelo cinema acaba por uni-los. As relações adensam-se, tornando-se cúmplices cada vez mais obsessivas e ciumentas. Tudo decorre com o Maio de 68 como pano de fundo e com todo o movimento contestatário que daí advém.
Bertolucci de uma forma soberba realiza paralelismos entre afectos, sexualidade e amor com ideais, utopias e revoluções. Centrando-se numa relação de três jovens em que tudo é levado aos limites, transgredindo convenções, vemos uma reflexão sobre a passagem da adolescência para o mundo adulto e de todas as contradições que lhe são subjacentes, chegando a pôr em causa as suas próprias convicções.
Dreamers, para além de caracterizar uma geração, é também um hino de amor à sétima arte. O filme mantém do início ao fim, através de uma excelente montagem, inúmeras referências a filmes clássicos memoráveis e intemporais: Band à Part, Freaks, Queen Cristina, Persona, À Bout de Soufle, Blow up, Mouchette.
Deliciosa é também a discussão de Mathew e Theo sobre Buster Keaton e Charles Chaplin , Jimy Hendrix e Eric Clapton.
De referir ainda o desempenho do magnífico elenco, a soberba fotografia, a que Bertolucci sempre nos habituou e a escolha selectiva da banda sonora, bem apropriada à época: Doors, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Edith Piaf, Geat, ful Dead, François Hardy, Montand.

27/07/10

Naked Lunch (1991)














O filme O Festim Nu combina o romance de Burroughs, Naked Lunch e inspira-se na morte preversa da mulher de Burroughs.
Cronenberg conjuga uma mistura de facto e ficção dentro do enquadramento rígido e formal do film noir. O resultado é mais um retrato surreal de Burroughs do que uma narrativa tradicional.
Peter Weller é Bill Lee (pseudónimo de Burroughs), um exterminador viciado no seu próprio pozinho contra insectos, que após ter morto acidentalmente a mulher, escapa para a misteriosa interzona. Lá é recrutado como espião num mundo habitado por máquinas de escrever que são insectos vivos, criaturas diversas, de cujos corpos brotam substâncias estranhas.
A subversão da narrativa por parte de Cronenberg é admirável, e admiráveis são também os desempenhos de Weller, Judy Davis e Roy Sheider. Mas a par da fotografia de Suschitzky merece também menção a música espantosa, uma colaboração entre Howard Shore, o compositor preferido de Cronenberg e o lendário saxofonista Ornette Colman.
Para além de Cronenbeg, entre outros, estiveram interessados em adaptar esta obra Terry Southern, John Huston, Frank Zappa, e Terry Gilliam.
Naked Lunch conquistou sete premios no Genie Awards, incluindo Melhor Filme e Melhor Director.

24/07/10

Wanda (1970)
















Wanda é um filme praticamente desconhecido realizado por Barbara Loden. Este é um belíssimo filme dentro da produção americana independente , que descreve através de uma personagem, uma figura magnífica, vagabunda, que se encontra à margem da ordem social, uma mulher desprovida de motivações, desejos ou força de carácter. Wanda deixou marido e filhos, erra sem destino até que conhece um ladrão, Dennis, de quem se torna amante e cúmplice.
Ela representa o oposto das mulheres independentes e contestatárias dos anos 70. Ela vagueia agarra-se às oportunidades que lhe vão surgindo no caminho como tábua de salvação. Mas nada lhe é indiferente, ela apenas espera alguém em quem confie. Ela não é ninguém, não tem identidade. Ela fez-se à estrada porque não era boa em nada, foi despedida do emprego, porque não era suficientemente rápida. O final do filme é bem exemplificativo da compaixão que ela nos faz sentir, sozinha no meio da multidão.
Wanda é um filme de uma violência contida peturbadora.
Loden foi aluna de Kazan e trabalhou com ele como actriz em Wild River (1960), o seu segundo filme; e em Splendor in the Grass (1961). Três anos depois casou com Kazan e com ele trabalhou.
Em 1970 realizou este seu único filme,cujo argumento é feito em parceria com Nick Proferes, com quem trabalhou em vários projectos. É também a interprete de Wanda.
Faleceu em 1980 com apenas 48 anos mas deixou-nos este filme exemplar, retrato de uma sociedade triste e indiferente aos loosers.

22/07/10

O Couraçado Potemkine (1925)





O Couraçado Potemkine é considerado o melhor filme russo e um dos grandes filmes da história do cinema mundial.
Potemkine foi um filme encomendado por Lenine para comemorar os vinte anos da revolta dos marinheiros e de todo o apoio prestado por estes ao proletariado na luta contra o czar. Compreende-se assim que o filme de Serguei Eisenstein seja também um dos maiores filmes de propaganda da história. Foi filmado na União Soviética em 1925, onde narra a história da revolta da tripulação da marinha russa, em 1905. Mostra toda a situação precária dos marinheiros oprimidos e revoltados contra os constantes abusos. Eisenstein transmite melhor que ninguém, toda a envolvência da união dos povos que lutavam contra a desigualdade e por melhores condições de vida.
Esta película teve décadas de censura em diversos países por ser considerado perigoso e subversivo, ensaios incontáveis que analisam a sua estrutura, simbolismo, origens e efeitos, milhares de citações visuais, tudo isto contribuiu para obscurecer a estória por trás do filme. É notável não só a visão lendária sobre a opressão e a revolta, a acção individual e colectiva, mas também a ambição artística de trabalhar em simultâneo com corpos, luz, objectos triviais, símbolos, rostos, movimentos e formas geométricas. Eisenstein revolucionou o modo de se fazer filmes com as suas inovadoras técnicas de fazer o corte e a montagem.
Muitos são os espectadores que só viram os extractos ou sequências mais famosas de Potemkine. Ficarão decerto surpreendidos, ao experimentarem a força desta história comovente e dramática, que a película transmite, quando a virem na totalidade.
O filme tem várias imagens memoráveis o carrinho do bebé que cai dos degraus ; o rosto de um marinheiro morto sob uma tenda no fim do cais ; os vermes na carne; os óculos do poder político. Mas a cena aterrorizante da escadaria de odessa, é talvez o momento mais brilhante de todo o filme. Sequência que Brian de Palma copiou em The Untouchables em 1987.