
Central do Brasil é um filme belíssimo. É uma história comovente, é certo, mas sem falsos preconceitos descobrimos um bom realizador e actuações magníficas, desde a Fernanda Montenegro ao pequeno Vinícius de Oliveira. Todos excelentes. Mas o mais surpreendente, é a construção da obra. Notável o arranque do filme com rostos anónimos a relatar o conteúdo das cartas. Dora é uma cinquentenária solitária, professora, aposentada, céptica e sarcástica, que sobrevive escrevendo cartas por encomenda no gare central do Rio de Janeiro. Ela ouve o Brasil miserável e passa a letra de forma os secretos desejos e as frustrações mais intimas deste povo. Desiludida da vida, Dora recebe de cada cliente um real para escrever e outro para pôr a carta no correio, o que nunca, ou raramente, faz. Expediente fácil, é certo, mas também forma de prolongar a sua profunda descrença nos outros. Ela “sabe” que o marido lá longe é um alcoólico, que a namorada o atraiçoa, que o amigo não o é, que o pai já morreu. Sem esperanças pessoais Dora não vê qualquer necessidade de prolongar as esperanças dos outros. Nem interesse em gastar selos em cartas que nunca receberão resposta. Ela “sabe”. Por isso rasga logo que chega a casa, depois de as ler com Irene, sua companheira de apartamento. Uma ou outra deixa passar o tempo sobre elas, numa gaveta, onde as enterra, à espera de resolução. Dora é uma mulher fria, dura, implacável. Dora é o espelho do Brasil de hoje.


Personagem marcante, deverá ser. Gostei da sugestão, vou guardá-la e ver se aproveito este Verão para pegar em todas elas :)
ResponderEliminarE obrigado por te lembrares :P
Beijo
Flávio, também já não era sem tempo:)
ResponderEliminarDe certo modo, foste tu que me fizeste recordar esta pérola do cinema brasileiro, abordando Cidade de Deus e o cinema brasileiro.
Beijinho
É realmente um filme belíssimo, a rever. kisses
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